Arquivo de setembro, 2008

Bonalume comenta “Os Caminhos de um Pracinha”

Posted in Saiu na imprensa... on setembro 30, 2008 by ccmaximus

Aos 87 anos , veterano narra em livro suas experiências na Segunda Guerra Mundial

RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL

Nunca é tarde para contar uma boa história. Foi pensando assim que o veterano da Segunda Guerra Mundial Vicente Pedroso da Cruz, 87, lançou, no sábado, “Os Caminhos de um Pracinha”.
O livro fala sobre suas memórias na FEB (Força Expedicionária Brasileira) durante a campanha italiana, entre 1944 e 1945.
Desde que voltou da guerra, esse mineiro de Guaxupé narrava suas experiências para familiares, amigos e revistas ligadas a associações de veteranos. Após muitos anos, instigado pelas filhas Lúcia e Lucila, ele resolveu registrar a história completa em livro.
“Eu escrevi sobre o que eu vi”, diz o veterano.
O lançamento da publicação, em um restaurante em São Paulo, reuniu familiares e amigos de Pedroso. Entre eles, o colega veterano Samuel Silva, 87, que foi comandante de uma seção de metralhadoras e compartilhou o “batismo de fogo” de Pedroso, então soldado da 8ª Companhia, do 3º Batalhão do 6º Regimento de Infantaria.
Mais de 60 anos depois do conflito, os veteranos brasileiros da Segunda Guerra ainda se reúnem regularmente -algo que dificilmente acontece com colegas de faculdade, ou de uma empresa.
“Na infantaria, existe a maior cumplicidade entre os homens que servem e que vivem juntos”, fala Pedroso. “Um depende do outro, existe muito companheirismo”.
No livro, Pedroso narra não apenas os momentos de combate. Conta também dos períodos de descanso e treinamento que entremeiam a vida de um soldado. Mostra, ainda, a compaixão pelos civis italianos. Em uma das passagens, descreve a reação de um grupo de mulheres e crianças ao ver os soldados brasileiros recebendo a ração de pão branco -raríssima, para os civis.
“”Pane bianco! Pane bianco!!” Tais palavras, pronunciadas por bocas famintas, impressionaram-nos tanto, que nenhum de nós teve coragem para engolir um só bocado daquele pão”, escreve [.]
O livro tem introdução do historiador Cesar Campiani Maximiano, que fez doutorado sobre a FEB na Universidade de São Paulo. “Vicente pôde desfrutar de apenas oito dias de descanso durante um total de 240 dias de linha de frente”, observa Maximiano.
A publicação não possui editora. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail cipedroso@yahoo.com.br.

Pela ótica dos adversários

Posted in Memórias de Guerra on setembro 26, 2008 by ccmaximus

Coloco aqui texto publicado no Caderno Mais! do dia 1 de abril de 2001, tratando de memórias de guerra de alemães e italianos que fazem menção à FEB.

Estudos publicados na Itália e Alemanha reavaliam a atuação da Força Expedicionária Brasileira na 2ª Guerra
Pela ótica dos adversários

 

Cesar Campiani Maximiano
especial para a Folha

A o entrevistar os principais generais alemães no imediato pós-guerra, o historiador militar inglês sir Basil Liddell Hart escolheu o sugestivo título de “O Outro Lado da Colina” para seu livro, que esclarecia alguns eventos do conflito do ponto de vista dos antigos inimigos. A expressão que inspirou o título é bastante adequada no caso dos alemães e italianos que das cristas dos Apeninos enfrentaram a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Até recentemente, pouco se sabia a respeito dos adversários da FEB na Itália. Entretanto recentes publicações na Alemanha e Itália, de autoria de antigos membros de unidades que estiveram diretamente em contato com a FEB, fornecem uma nova avaliação da opinião dos antigos inimigos. “Bomber, Jabos, Partisanen Die 232 – Infanterie-Division 1944-45 in Italien” (Bombas, Caças-Bombardeiros, Guerrilheiros da Divisão de Infantaria 232 em 1944-45 na Itália) é o título do livro sobre os principais adversários dos brasileiros na Itália. Bombardeiros, aviões de caça, guerrilheiros. Uma tríade tristemente guardada na memória de muitos veteranos alemães. A despeito do título, a maior parte dos capítulos do livro é dedicada à 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária da FEB e à 10ª Divisão de Montanha americana, principais adversárias da 232ª. Um dos capítulos chama-se “Die Brasilianer und der Monte Castello” (Os Brasileiros e o Monte Castello), sobre a tomada do monte em 21 de fevereiro de 1945. Outros destaques são os combates por Montese e as derrotas da FEB nos primeiros ataques a Monte Castello. Em comum com as memórias de guerra brasileiras, a obra possui trechos a respeito do rigor do inverno apenino, das adversidades que os combatentes encontravam na guerra de montanha e nas duras missões de patrulha na neve. No livro “La Guerra sulla Linea Gotica Ocidentale” (A Guerra na Linha Gótica Ocidental), de 1999, o veterano italiano Cesare Fiaschi, da Divisão Alpina Monterosa, que esteve frente a frente com os brasileiros no início da campanha da FEB na Itália em outubro de 1944, recorda alguns combates contra brasileiros. É interessante a visão que antigos fascistas guardaram dos expedicionários da FEB. Até hoje influenciado pela propaganda do tempo da guerra, Fiaschi tece considerações a respeito de os brasileiros haverem combatido na Itália puramente em defesa de interesses americanos. Essa opinião, no entanto, não desmerece o juízo do autor quanto à capacidade da FEB: Fiaschi elogia a tenacidade dos expedicionários que combateu, chamando-os de “oponentes honrados”, e, juntamente com outros veteranos italianos, não esquece o fato de, quando da rendição da Divisão Monterosa a tropas da FEB em abril de 1945, os brasileiros prestarem honras militares aos soldados que marchavam em direção ao cativeiro, impedindo que os prisioneiros fossem sumariamente fuzilados por guerrilheiros.

Abandono dos ex-combatentes
Menções ao bom tratamento dispensado pelos brasileiros aos inimigos capturados existem em ao menos dois outros livros publicados na Itália por antigos adversários da FEB. Uma surpresa no livro de Fiaschi é um trecho dedicado ao abandono dos ex-combatentes brasileiros no pós-guerra. Seria interessante descobrir como a falta de assistência aos expedicionários da FEB alcançou repercussão entre os veteranos italianos. Ao contrário da grandiloquência com que o episódio costuma ser descrito em cerimônias e textos militares, e do extremo oposto derrogatório oferecido por William Waack em “As Duas Faces da Glória” (ed. Nova Fronteira) e pelo vexaminoso filme de Sílvio Back, “A Rádio Auriverde”, as obras de Boucsein e Fiaschi ajudam a provar que, independentemente da sua importância no contexto do planejamento das operações militares em grande escala, todas as experiências de guerra marcaram indelevelmente as memórias daqueles que combateram. A participação brasileira na guerra foi depreciada pelo fato de os brasileiros não terem combatido num teatro de operações de relevância estratégica, sem levar em consideração que as condições que os soldados enfrentavam eram idênticas em quaisquer das frentes de batalha da Europa, embora entre os veteranos exista o consenso de que a Itália foi um dos campos de batalha que mais dificuldades apresentou. Documentos do Serviço Médico do Exército americano revelam que a taxa de brasileiros baixados por doença e problemas dentários era equivalente à média das divisões norte-americanas. O número de brasileiros baixados por doenças foi utilizado como argumento para atestar a inaptidão da FEB, mas tanto brasileiros quanto americanos e alemães foram hospitalizados aos milhares durante o inverno de 1944. Por sua vez, a própria insistência das Forças Armadas em considerar a FEB como integrante primordial do esforço de vitória aliado e a consubstanciação simbólica de todas as virtudes do militar brasileiro na conquista de Monte Castello serviram mais para aumentar a aura de desconfiança em torno do assunto do que para consolidar uma memória de caráter laudatório.

Aura de desconfiança
Ao se tornar inquestionável quanto à eficiência e glória do ponto de vista dos militares, a campanha da FEB na Itália atraiu reações de descontentamento com o regime militar que erroneamente acabaram atingindo os brios de milhares de veteranos humildes. A escolha do episódio pelo Exército Brasileiro para figurar como peça do mecanismo proselitista da instituição é compreensível, já que se trata da única glória militar do século 20.
Do ponto de vista de italianos e alemães, a FEB desperta bem menos paixões. Devido ao fato de serem os brasileiros apenas mais uma nacionalidade na lista de adversários que tiveram durante a Segunda Guerra Mundial, não há a necessidade de engrandecer nem menosprezar o fato. Diante de tais tentativas de encontrar sentidos mais amplos no episódio, livros como o de Fiaschi e Boucsein fogem ao costumeiro mau hábito da história militar tradicional de transformar toda e qualquer batalha em glória nacional.


Cesar Campiani Maximiano é doutorando em história na USP e autor de “Onde Estão Nossos Heróis – Uma Breve História dos Brasileiros na 2ª Guerra” (ed. Atlas).

Bomber, Jabos, Partisanen
219 págs., 68 marcos de Heinrich Boucsein. Ed. Kurt Vowinckel-Verlag (Alemanha)La Guerra sulla Linea Gotica Occidentale
276 págs., 21,69 euros de Cesare Fiaschi. Ed. Lo Scarabeo (Itália).

Heróis da retaguarda

Posted in Memórias da FEB on setembro 26, 2008 by ccmaximus

O veterano da FEB Luiz Paulino Bonfim uma vez se referiu a si mesmo como integrante da “fraternidade dos homens que andaram levando tiros.” Bonfim se lembrava de ter trabalhado com um veterano alemão no pós-guerra, e que sentia uma grande identificação entre sua própria experiência e a de seu colega de trabalho. As demais pessoas ficavam alheias ao exclusivo universo das conversas travadas entre os dois, já que não tinham experiência semelhante que as qualificasse para entender e penetrar em seus assuntos.

O curioso é que esse sentimento exclusivista já se manifestava durante a guerra. Um dos maiores fatores de aumento do moral das tropas em combate é o distintivo identificador da unidade – não é coincidência que o moral da divisão de infantaria expedicionária brasileira cresceu depois da introdução do distintivo da cobra fumando. O que pouca gente lembra é que durante a Campanha da Itália a cobra não era um símbolo de toda a Força Expedicionária Brasileira, mas apenas dos integrantes da divisão. Isso não impediu que o uso do distintivo se disseminasse por todas as regiões onde soldados brasileiros pudessem ser encontrados. Meu tio Antonio Amarú se lembrou de uma música que se tornou popular em sua unidade, o III Batalhão do Regimento Sampaio:

Andar bonito

Com a roupa toda recortada

É lá para os heróis da retaguarda

Você que é combatente, mas não conhece a linha de frente

Só anda bonito e usando o distintivo da cobra fumando

Arrume um P.O. avançado

Vem ver o tedesco ser bombardeado

E vê se você se apruma pois na retaguarda a cobra não fuma!

Ressentimentos entre as tropas combatentes e o pessoal de apoio foram comuns nos grandes conflitos mundiais, e como a concepção do distitivo estava estritamente associada às ações de combate, no tempo da guerra os soldados da infantaria divisionária achavam que o direito de uso do símbolo lhes era exclusivo. Depois da guerra, a cobra fumando se popularizou como emblema de todos os veteranos da FEB.

Guerra, previsões e números.

Posted in Segunda Guerra Mundial on setembro 23, 2008 by ccmaximus

As forças armadas e as sociedades das quais estas se originam progridem graças ao espírito crítico constante que aponta defeitos e sugere melhorias para os problemas encontrados. É como se uma insatisfação incessável gerasse um sentimento coletivo de intolerância com o que deu errado ou não funcionou segundo as expectativas e planos. De maneira bem diferente de nossa tradição brasileira, as forças armadas de países como EUA e Inglaterra têm por hábito a revisão crítica minuciosa de seu passado militar, seja nas escolas nacionais de estado maior seja nos inúmeros cursos acadêmicos de história militar já consolidados.  E depois os americanos é que são triunfalistas…

“Os grandes capitães” do passado militar americano não gozam de admiração unânime entre historiadores nos EUA. Na historiografia disponível, o General Patton surge tanto como um comandante tirânico motivado pelas manchetes de jornais quanto como um muito eficaz general combatente que graças à sua iniciativa de ofensiva constante pôde encurtar a guerra em alguns meses e economizar vidas de soldados americanos. Patton pode ser lembrado como um contraponto aos comandantes que continuavam insistindo em batalhas de atrito como a da floresta de Hurtgen, cujo custo em baixas atingiu 33.000 americanos.

Uma das mais célebres preocupações voltadas para a resolução de problemas práticos apontados durante a Segunda Guerra Mundial surgiu quando o Coronel S.L.A. Marshall publicou seu livro Men Against Fire logo após o final do conflito. Alegando ter entrevistado cerca de 100.000 combatentes de infantaria nas imediações das linhas de frente, Marshall publicou as alarmantes conclusões de sua pesquisa: nas situações de combate, apenas 15% dos homens das companhias de fuzileiros disparavam suas armas. A porcentagem era semelhante em todas as divisões de infantaria pesquisadas, e a única exceção era constituída por unidades de elite como os pára-quedistas: nestas, a porcentagem de homens que chegaram a disparar seus fuzis alcançava 30%, mas mesmo assim essa quantidade permanecia grotescamente abaixo do grau de agressividade esperado dos soldados. O que estaria errado? O treinamento? A motivação moral para a guerra? O armamento? A explicação genérica de Marshall é  que os homens deixavam de disparar em combate pois a maioria se encontrava arrebatada pelo medo.

Mas fosse qual fosse a resposta, as descobertas de Marshall causaram uma crise nos responsáveis pelo treinamento da Infanataria americana. Seu livro mais conhecido foi publicado no Brasil na década de  50 pela primeira vez. Uma nova edição de Homens ou Fogo foi novamente relançada pela Bibliex em 2003.

O problema é que desde o momento da publicação, uma série de historiadores americanos e veteranos da Segunda Guerra desconfiava que algo estava errado com as conclusões de Marshall. A “razão de fogo” inventada pelo autor simplesmente não correspondia à experiência individual vivida na guerra por vários de seus críticos, mas o coro de descontentes não chegou a surtir grande efeito. As sugestões de Marshall foram aplicadas e causaram uma revisão na condução da instrução de Infantaria nos EUA. Acredita-se que as alterações no treinamento sugeridas por Marshall tenham surtido efeito, pois constatou-se que na Guerra do Vietnã a taxa de homens que disparava seu armamento individual em combate havia atingido a porcentagem de 90%.

Quando Homens ou Fogo chegou às livrarias, as opiniões sobre Marshall e seus escritos causaram uma divisão nas forças armadas americanas. Parte do Exército seguia criteriosamente seus conselhos e graças a esse prestígio Marshall continuou sua carreira servindo em posições importantes. Outra parte continuava vendo o historiador com desconfiança e conferindo pouco crédito às conclusões de seu trabalho.

Foi somente no ano de 1988 que uma revisão metodológica das pesquisas de Marshall e sua documentação acabou fazendo com que Homens ou Fogo perdesse a respeitabilidade. Na época, Roger J. Spiller, então professor do Combat Studies Institute avaliou a coleção documental de Marshall e percebeu que entre o material conservado em seus arquivos pessoais as estatísticas apresentadas em Homens ou Fogo não constavam dos questionários oferecidos aos soldados de infantaria entrevistados. Spiller também observou que Marshall afirmava ter entrevistado integrantes de 400 companhias de fuzileiros em sua totalidade, mas que os questionários preservados no arquivo estavam bastante distantes desse número (durante a Segunda Guerra, cada companhia de fuzileiros tinha 183 homens na organização americana) e um dos principais colaboradores da equipe de Marshall, John Westover, não se lembrava de tê-lo visto fazendo a pergunta se um homem teria ou não disparado seu fuzil em ação.

Spiller argumenta que as alegações de Marshall sobre a “razão de fogo” e as porcentagens citadas não estavam amparadas em base empírica. Na melhor das hipóteses, as conclusões de Marshall não passaram de pura invenção motivada pela intuição, colocando o autor numa fronteira tênue entre a má produção histórica e o charlatanismo.

Mas por mais incrível que isso possa parecer, as inovações no treinamento sugeridas a partir da falta de agressividade supostamente detectada por Marshall resultariam na altíssima porcentagem de 90% de homens que haviam disparado suas armas, número aferido no Vietnã por um processo metodológico devidamente registrado e documentado. Entretanto, a supresa perante a aparente superior agressividade da infantaria do tempo do Vietnã pode estar calcada em um problema falso: não há nenhuma possibilidade de certeza em afirmar que o aumento da “razão de fogo” foi significativo, uma vez que as baixas porcentagens apresentadas por Marshall provavelmente estavam aquém da realidade.

Marshall não foi o único historiador descrente da eficácia do sistema americano dentro do US Army. A eficiente resistência apresentada pelos alemães em vários teatros de operações ainda causava desconforto em alguns setores do Exército. Em 1979, o coronel Trevor N. Dupuy publicou Numbers, Prediction and War: using history to evaluate combat factors and predict the outcome of battles.

A partir de 65 embates entre o Exército Americano e os alemães no Teatro de Operações da Itália, Dupuy observou que a necessidade do lado aliado era de constante superioridade numérica conjugada com pesados bombardeios preparatórios de modo a proporcionar a vitória no combate. Dupuy passou então a analisar as baixas americanas, geralmente altas, em comparação com o número ínfimo de baixas sofrido pelos alemães nos combates escolhidos como estudos de caso. Somada à necessidade de superioridade numérica e material, a discrepância de resultados e custo das operações apontava para um quadro de ineficácia militar americana.

As críticas ao trabalho de Dupuy não demoraram a surgir. Dentre as amostras de combates utilizadas no livro, a maioria era configurada pela conquista de posições elevadas defendidas pelos alemães. Logicamente, para que operações do tipo obtenham sucesso as preparações de artilharia e a superioridade numérica tornavam-se indispensáveis. O quadro não era portanto tão desairoso para a boa imagem da condução americana da guerra, já que havia um desequilíbrio de condições intrínseco nas situações estudadas. A refutação dos argumentos de Dupuy foi além: e daí se os americanos fiavam-se na preparação de artilharia? Era apenas sorte deles se o potencial industrial do país permitia que vidas de soldados fossem poupadas graças ao elevado dispêndio de munição. A defesa do sistema militar americano foi uma reafirmação da mentalidade posta em prática durante a guerra: um canhão pode ser feito em vinte minutos, mas um homem só pode ser feito em vinte anos. Gastem-se os canhões, poupem-se os homens.

Por anos consecutivos, trabalhos como os de Dupuy e Marshall embasaram críticas ácidas ao Exército Americano. O historiador militar israelense Martin van Creveld também participou do debate com seu livro Fighting Power, lançado em 1982.

O trabalho de Dupuy seguramente foi elaborado com mais seriedade que o de Marshall. Resta, contudo, uma contradição: sua obra desqualificava um tipo de organização militar que afinal, havia sido vitorioso frente ao exército que consideravam como o mais eficiente da Segunda Guerra Mundial.

Os próprios historiadores do Exército Americano, como Peter Mansoor e Michael Doubler, produziram nos anos 90 sólidas obras de refutação das críticas à condução da guerra pelo Exército, baseadas em detalhadas análises dos processos de treinamento e emprego em linha das divisões empenhadas no noroeste da Europa. Sempre, desde os momentos mais graves de crise nas linhas de frente, a preocupação com a erradicação dos problemas e inadequações de treinamento estiveram presentes, como mostram inúmeros casos de rápida adaptação à realidade do combate que estava em constante mudança, como mostram Doubler e Mansoor. Esse progresso substancial do conhecimento sobre o desempenho americano na Segunda Guerra só é produzido pela infindável revisão dos consensos historiográficos, um produto tão legítimo da consciência crítica permanente como os trabalhos de Dupuy e Marshall, que afinal foram responsáveis por um dos mais vigorosos debates sobre a eficácia de combate dos exércitos aliados durante o conflito.

Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira, de Leonercio Soares

Posted in Memórias da FEB, Memórias de Guerra on setembro 23, 2008 by ccmaximus

 

 Não, apesar da primeira idéia que surge quando lemos o título do livro, não se trata de mais uma canalhice desancando a atuação dos soldados brasileiros na Itália. Mesmo porque foi escrito por alguém que estava lá, e quem estava lá sabe o quanto foi difícil e custosa aquela campanha. Tive contato com o livro de Leonercio pela primeira vez em 1985. Havia alguns volumes empilhados em uma loja das Livrarias Siciliano que já não existe mais, localizada na rua Teodoro Sampaio. A capa mal delineada com a reprodução de um panfleto de propaganda alemão e o título que prometia revelações sobre episódios obscuros imediatamente chamaram a atenção. Não havia logotipo de editora. Apesar de se tratar de uma edição custeada pelo próprio autor, o livro havia entrado na rede de distribuição das maiores livrarias nacionais. Como? Provavelmente, graças ao esforço pessoal do autor. Era o resultado do trabalho de alguém que tinha uma história a contar, e que precisava desesperadamente ser ouvido. Como sempre, meu pai atendeu meu pedido de comprar o livro.

Até então, o único livro sobre a FEB que havia lido era “A Luta dos Pracinhas,” na edição de 1983 da editora Record. Tratava-se da republicação de várias das crônicas do correspondente de guerra Joel Silveira, no volume acrescidas de um apêndice de dezenas de fotografias da FEB – a maioria das quais inédita e supreendentemente com legendas corretas, pois o livro havia sido publicado em co-autoria com Thassilo Mitke, também correspondente da FEB e autor das imagens.

Além do título e do caráter de livro independente de “Verdades e Vergonhas,” as poucas fotos publicadas na obra de Leonercio também despertaram uma curiosidade intensa. No lugar das fotos de desfiles, de reuniões de generais e das triunfais imagens da rendição de Fornovo, as imagens selecionadas por Leonercio mostravam alguns soldados barbudos e enlameados. Uma das legendas: “entrada do túnel asqueroso sob o velho cemitério de Bombiana.” A descrição que Leonercio fazia do front inspirava terror. Bastou para perceber mesmo antes de chegar em casa e começar a ler que o livro teria, sim, muito de novo e desconhecido para quem desejasse conhecer mais profundamente a história da FEB.

Mas antes de entrar no assunto da guerra, o livro começa com uma angustiante narrativa de dois veteranos da FEB, sobrevivendo em Brasília no ano de 1970 graças a esmolas e caridade de alguns indivíduos sensíveis aos seus problemas. Um deles habitava precariamente um barracão da obra da futura sede da associação dos ex-combatentes. Pode soar como exagero, já que o livro está imbuído do caráter de denúncia das injustiças cometidas contra os veteranos da FEB. Anos depois, ouvi de expedicionários de São Paulo inúmeras histórias similares sobre veteranos que dependeram da caridade da associação, tendo vivido temporariamente no velho casarão da rua Santa Madalena por não disporem de condições de garantir uma moradia. Leonercio não estava exagerando. Nada de anormal no Brasil, tal como aconteceu com tantos outros que não caíram nas graças da caridade oficial – fossem veteranos ou não.

Ele também não exagerou quando fez referência à péssima alimentação que se planejou fornecer aos combatentes da FEB antes da partida para a Europa, nem quando fez menção à falta de preparo da tropa e da incapacidade de conduzir homens demonstrada por alguns oficiais. Leonercio não era homem de meio termo, e quem lê o livro percebe quais comandantes de fato arraigaram respeito e quais foram desprezados pelos veteranos – décadas de conversas com estes igualmente reforçaram minhas impressões sobre a precisão do registro histórico do livro.

Anos se passaram sem maiores informações sobre o autor e sua obra. A única confirmação obtida era que Leonercio havia de fato embarcado para a Itália como cabo na 2.a Companhia de Fuzileiros do 11.o Regimento de Infantaria. Há uma fotografia sua no livro “O Paraná na FEB,” de autoria de Agostinho José Rodrigues, além de uma breve descrição da ação que o fez merecedor da Cruz de Combate de 1.a Classe.

Quinze anos depois, em 2000, as livrarias de Curitiba receberam uma nova partida do livro. Tratava-se de edição idêntica à obtida em 1985, porém com um carimbo que atualizava o endereço de contato com o autor. Mesmo assim, a obra de Leonercio permaneceu desconhecida fora do círculo de leitores curitibanos. Nem os expedicionários residentes em outros estados que não o Paraná tomaram contato com a obra. Havia um exemplar na biblioteca do Centro Cultural Vergueiro em São Paulo que despareceu – único caso de meu conhecimento sobre a presença do livro em um acervo de consulta pública.

Além do elenco de vergonhas a que foram submetidos os soldados brasileiros – iniciais, intermediárias e finais, na classificação do autor – a narrativa do livro enfoca as ações de combate de uma companhia de fuzileiros na Itália. Em nenhum momento se faz menção à unidade de pertença dessa companhia, mas as datas e localidades mencionadas logo tornam evidente que se trata de uma das companhias do I Batalhão do 11.o RI. A narrativa do ataque de 12 de dezembro de 1944 ao Monte Castello é uma das mais dramáticas e detalhadas dentre toda literatura de memória produzida por veteranos da FEB. Essa ação de combate foi o batismo de fogo da unidade de Leonercio, que ainda teria pela frente os meses de patrulhas em montanhas e a tarefa de constituir a vanguarda no ataque a Montese realizado a partir de 14 de abril de 1945. Sua atual ausência das livrarias e o fato de nunca ter despertado o interesse de grande editoras é constatação cabal do desinteresse sobre a história da FEB ainda vigente no Brasil, relacionado a uma indiferença maior em relação a questões históricas mais amplas. É preciso que livros como o de Leonercio se tornem conhecidos, para que nosso entendimento sobre a experiência brasileira na Segunda Guerra Mundial não se esgote nas superficiais lembranças de velhinhos montados em carros de combate em desfiles de 7 de Setembro.

Leonercio faleceu muitos anos depois da guerra, mas nunca lhe deixaram de ser próximos o sibilar dos ventos de inverno e os assovios das rajadas da Lurdinha.

Gettysburg 75 anos depois.

Posted in Uncategorized on setembro 21, 2008 by ccmaximus

Os últimos veteranos da Guerra Civil Americana faleceram no início da década de 1950. Um vídeo no Youtube mostra uma filmagem de 1938, aniversário dos 75 anos da batalha de Gettysburg, evento ao qual um número de veteranos ainda chegou a comparecer, tanto da União quanto da Confederação.

Feitas para durar.

Posted in Uncategorized on setembro 20, 2008 by ccmaximus

As fotos a seguir foram tiradas no Iraque por um sargento da 101.a Divisão Aerotransportada, os “Screaming Eagles.” Elas mostram algumas das armas capturadas das mãos de insurgentes durante operações ofensivas. Uma das fotos mostra um M1 Garand, outra um fuzil Mauser 98K. O itinerário que essas armas percorreram para chegar até as mãos de guerrilheiros iraquianos e terroristas da Al Qaeda não foi claramente establecido, mas como os excedentes de armamentos da Segunda Guerra Mundial alimentaram incontáveis guerrilhas e guerras durante a Guerra Fria, a permanência dessas armas em uso não constitui exatamente uma surpresa. Várias delas surgiram novamente em mãos de combatentes nas guerras dos Balcãs durante os anos 90, ainda em condições de uso. Eram amplamente apreciadas pela letalidade dos cartuchos utilizados na Segunda Guerra Mundial, em calibres como o 7.92 e o .30.06, mais potentes que os calibres 5.56 adotados pelos EUA atualmente. Essas fotos são um testemunho da robustez e eficácia do armamento de infantaria empregado por aliados e alemães na última grande guerra.