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O fim de mais um museu no Brasil. E quem não esperava por isso?

Posted in História da FEB, Memórias da FEB, Saiu na imprensa..., Segunda Guerra Mundial on janeiro 16, 2014 by ccmaximus

downloadhttp://bandnewsfmcuritiba.com/2014/01/14/museu-do-expedicionario-esta-com-problemas-de-infraestrutura/

Se fosse para discutir a qualidade deste museu em seus tempos áureos, eu não o pensaria como um dos melhores museus da FEB existentes, eu o situaria como um dos dez melhores museus do Brasil em termos absolutos. Em parâmetros de museus dedicados a unidades específicas, era sem dúvida um dos melhores e mais bem apresentados do mundo. O museu era uma exceção absurda, um ponto de terra firme no atoleiro intelectual chamado Brasil. Era questão de tempo até que fosse tragado.

Nem dá para explicar a decadência que o afetou nos dez últimos anos para os atuais responsáveis na esfera governamental, pois, para entender isso, eles teriam que conhecer a história do Brasil e da FEB, teriam que entender a qualidade dos artefatos militares lá expostos, teriam que entender a importância da História Militar para a formação de um país, teriam que possuir o bom gosto e capacidade de apreciação estética para desfrutar do seu maravilhoso acervo e exposição, teriam que ter a sensibilidade, acima de tudo, para ver naquele museu o fruto do empenho individual, do idealismo pessoal. E essas não são qualidades dos nossos representantes em nenhum dos lugares existentes para trabalhar em prol da sociedade. Nenhum. E, se você não tem essas qualidades, você não as reconhece quando as encontra. Estamos falando de gente que viaja para a Europa e EUA na base da verba pública, passa batido pelos museus e vai se enfiar em outlets. Capiaus que visitam o MASP e acham que viram um museu de verdade.

O acervo dispunha de uma enormidade de objetos de luminares da Divisão de Infantaria Expedicionária que fariam a inveja de qualquer grande museu militar. Infelizmente, creio que o que resta é guardar na cabeça a lembrança deste e de outros centros de memória. O abandono de um museu desse quilate é relacionado a um problema que não tem solução, que é o problema educacional e cultural brasileiro. É uma guerra que já perdemos. O que estamos testemunhando com esse processo é só mais uma prova da nossa insuperável habilidade em destruir o que existe de melhor no que resta da cultura neste país.

Há raríssimas e altamente honrosas exceções que ainda resistem heroicamente, como o museu de BH, mantido na base de trabalho voluntário. É coisa feita por gente que dá seu preciosíssimo tempo, de forma idealista, para tentar garantir a memória que a FEB merece no âmbito público. O Brasil não é, nem nunca será, um país de museus, especialmente museus integrados ao sistema educacional – outra coisa que não existe decentemente por aqui, e que ao que tudo indica só irá piorar.

Meu conselho: desistam dessas empreitadas quixotescas de querer salvar museus onde ninguém dá bola para eles, e lutem com as armas que temos hoje, que são a facilidade de publicação e a divulgação da Internet. Vocês irão ao menos despertar o interesse de meia dúzia de gatos pingados que ainda não foram contaminados pela apatia cultural dos trópicos. Ninguém que supostamente deveria nos representar neste arremedo de democracia está interessado em celebrar a memória daqueles que justamente lutaram pela democracia. Isso não dá voto e não dá promoção nas tão decantadas “carreiras de Estado”. Dêem-se por felizes que cronologicamente a FEB é um episódio próximo e que nossa geração ainda conseguiu registrar, estudar e refletir sobre este episódio. O mesmo não aconteceu com outros episódios igualmente importantes para nosso país, como a Guerra do Paraguai. Da mesma maneira que os veteranos da FEB formaram suas associações, os veteranos do Exército Imperial também as tinham, com museus, bibliotecas e espaços de convívio. Nenhuma sobrou. Nenhum desses acervos resistiu à indigência cultural brasileira.

Insistir nesta questão é como dar brilho nas escotilhas do Titanic. Se vocês gostam de museus de guerra, Londres e Paris tem alguns que são ótimos.

“Mistério” da Segunda Guerra resolvido.

Posted in Saiu na imprensa..., Segunda Guerra Mundial on junho 22, 2011 by ccmaximus

Quem leu o Estadão hoje deve ter notado a matéria sobre o álbum do fotógrafo de uma Propagandakompanie, registrando faces de prisioneiros que iriam enfrentar sombrios prognósticos. Curiosamente, hoje é o aniversário de 70 anos da Operação Barbarossa.

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,misterios-de-um-album-de-fotografias-nazista,735410,0.htm

Não era um “mistério”, obviamente. O álbum era apenas um dos milhões de “war bringbacks” levados aos EUA pelos veteranos durante o fim da guerra e os anos de ocupação.

O NYT publica uma história interessante sobre o equívoco:

http://lens.blogs.nytimes.com/2011/06/22/world-war-ii-mystery-solved-in-a-few-hours/

A distância entre o jornalismo americano e brasileiro é a distância no trato aos veteranos nos dois países.

Posted in Saiu na imprensa... on junho 16, 2011 by ccmaximus

O começo desta história, junto com o trecho da Folha de São Paulo que motiva esta postagem estão aqui:

http://olapaazul.com/

O autor do blog do Lapa Azul já tratou do assunto em ótima medida. Como eu conheci Gratagliano e também me incomodei bastante com a forma que o jornal noticiou seu falecimento, acho adequado dizer o que penso a respeito. Já se passaram quase quatro anos da publicação do obituário. A diferença é que naquela época eu não sabia que o Willian Vieira tinha um blog. http://24tz.wordpress.com/ – visitem, é sen-sa-cio-nal! Junto a um companheiro, Willian também dá alegres tuítadas: http://twitter.com/#!/24tz

Obtive a foto do jornalista responsável pelo obituário em seu blog, longo relato da variedade “viagem de descoberta interior”, que entre outras proezas como mudança de sexo, elenca uma enfadonha série de manifestações de ego-trip, enquanto o par saltita pela Ásia: os viajantes de países do Hemisfério Norte são “mochileiros brancos” tolos em busca de drogas. Ele, claro, é o peregrino sensível e esclarecido. Aparentemente, Willian (assim, com “n” no final mesmo) é do tipo que precisa ir à Índia em busca de “iluminação”. Mesmo que isso signifique acreditar que saudar cadáveres em decomposição boiando em rios equivale a uma manifestação espiritual apurada. Esse papo de “sabedoria oriental” não cola no blog deste autor, conservador, reacionário e caretão (como diria o Ultraje a Rigor). E essa conversa me é especialmente irritante quando ela provém de quem se identifica com os pobres de alguma favela no sudeste asiático, mas despreza os pobres com sotaque italianado dos cortiços do Brás.

Willian pôde escolher cuidadosamente as imagens postadas em seu blog. Logicamente, ele teve o cuidado de selecionar poses bacanas.

Vejamos uma das fotos:

E vejamos aqui uma outra cena que a mesma imagem acima suscita:

O soldado brasileiro fotografado na neve, tal como família de Gratagliano (e o que dizer do próprio) não tiveram a mesma prerrogativa: escolher como iriam aparecer. O expedicionário na neve segura o ski de maneira canhestra, de equilíbrio titubeante, sem muito tempo para pose para o fotógrafo, sem poder se arrumar, sem poder ter feito cara de gostoso para os parentes no Brasil. Sem poder endireitar a roupa amarfanhada. Obviamente, ele tinha preocupações mais imediatas naquele momento.

Willian trata a si mesmo como uma espécie de estrela do jornalismo. No tempo de Gratagliano, a palavra usada para descrever esse comportamento era “cabotinismo”. Mas o jornalista era implacável com as pessoas humildes que retratava em seus obituários – uma covardia que chegava ao ponto de utilizar um grande jornal para ridicularizar o tipo de gente que jamais teria acesso à expressão na grande imprensa, e exatamente por isso incapaz de responder ao aviltamento. Escrevendo para agradar sua meia dúzia de chefes alegres e descolados, ele mesmo deitou por terra sua pretensão de sensibilidade literária, ao escarnecer um octogenário agonizante, que ele jamais conheceu pessoalmente. Se um dia deseja ser um bom escritor, talvez devesse ler certos livros de Rubem Braga e Boris Schnaiderman.

E tudo isso sob o pretexto de um jornalismo ágil e moderno: o veterano brasileiro foi retratado como uma figura rústica e carcomida, já além da hora de passar para uma melhor. Para quem não o conheceu, o obituário pode ter soado como desrespeitoso, no mínimo. Para quem o conheceu, é gritante a contrafação.

De onde teria surgido o ímpeto de criar esses obituários? A resposta é fácil: o jornalismo brasileiro, estagnado, prima pela falta de criatividade e capacidade de inovação. A única solução é buscar “exemplos” do jornalismo estrangeiro, em especial do anglo-saxônico – nessas horas em que o dinheiro da venda do jornal é levado a sério, a Índia não pode servir de referência, não é mesmo? Desprezar o Ocidente só vale para quando convém.

Essa necessidade de imitar o jornalismo americano é admitida pelo próprio idealizador da “modernização” do jornal, Matinas Suzuki Jr., em uma entrevista para o Observatório da Imprensa:

“A Folha começou a fazer essa seção, é um pequeno texto, uma pequena história, muito bem escolhida e muito bem escrita por um jovem jornalista chamado Willian Vieira que vem na tradição do melhor obituário moderno da imprensa anglo-saxã, que é, eu acho, o grande obituário que a imprensa tem hoje.”

A íntegra da entrevista está aqui, sob o título “Obituário com estilo”:

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/obituario-com-estilo

Como é típico dos arrivistas desesperados por carreira, citações mútuas e puxação de saco do chefe Kawasaki também valem. Willian escreveu:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u367135.shtml

“O obituário talvez seja o único lugar da imprensa diária que chegou perto do jornalismo literário sistematicamente”, diz Matinas Suzuki Jr., coordenador da coleção “Jornalismo Literário”.

Acontece que copiar algo bem feito não é assim tão fácil. O fato de um jornal se inspirar no New York Times não significa que automaticamente irá alcançar idêntica qualidade literária. Para tanto, são necessárias outras qualidades, como sensibilidade e talento. Willian “vem na tradição do melhor obituário moderno”, segundo Suzuki. Vocês já devem ter percebido que na minha opinião, nenhum dos jornalistas sabe do que está falando.

Mas epa, Suzuki deve entender mais de jornalismo do que eu, não? Talvez a prova dos nove se encontre nas páginas do próprio NYT – principal “fonte de inspiração” para a FSP.

Será que o NYT concordaria com essa avaliação? O jornal nova-iorquino, talvez, daria o mesmo tratamento a um veterano americano recém-falecido? O NYT é sabidamente um jornal que pode ser classificado como “liberal” no sentido americano, freqüentemente crítico aos republicanos, e em especial das ações militares dos EUA ao redor do mundo. Mas vejamos como o jornal anunciou a morte de um veterano americano da Segunda Guerra Mundial, há poucos dias:

http://www.nytimes.com/2011/06/10/us/10alison.html?_r=1&ref=obituaries

John R. Alison, Ace Fighter Pilot in World War II, Dies at 98
By DENNIS HEVESI
Published: June 9, 2011
John R. Alison, an ace fighter pilot in World War II who helped organize and lead a broad American air campaign that enabled British forces to bog down the Japanese in the jungles of Burma, died Monday at his home in Washington. He was 98.

His son David confirmed his death.
Mr. Alison, a retired Air Force Reserve major general, was a lieutenant colonel in what was then the Army Air Forces in late 1943 when Gen. Henry Arnold, commander of the Air Forces, assigned him and another lieutenant colonel to organize Operation Thursday, which is credited with having helped protect India from invasion by the Japanese. The other lieutenant colonel was Philip Cochran, the model for the character Flip Corkin in the popular comic strip “Terry and the Pirates.”
The two young officers came to General Arnold’s attention for their exploits before and in the early years of the war. Colonel Cochran, who died in 1979, had been a successful fighter group commander in North Africa.
Colonel Alison, who would go on to qualify as an ace by taking down seven enemy planes, was the pilot who demonstrated the capability of the Curtiss P-40 Warhawkto the Nationalist Chinese leader Chiang Kai-shek, when he came to the United States in 1940 to buy planes for the fabled American volunteer group the Flying Tigers.
In his book “Way of a Fighter” (1949), the commander of the Flying Tigers, Gen. Claire Chennault, recalled that “Alison got more out of that P-40 in his five-minute demonstration than anybody I ever saw before or after.” When he landed, General Chennault said, members of the Chinese delegation “pointed at the P-40 and smiled, ‘We need 100 of these.’ ‘No,’ I said, pointing to Alison, ‘you need 100 of these.’ ”
General Arnold decided he needed the two lieutenant colonels because the British, under Maj. Gen. Orde C. Wingate, had faced calamitous conditions in 1943 when they first tried to pin down Japanese occupation forces in Burma. Without air protection, the British had slogged hundreds of miles into the jungle and been forced to leave their wounded to die on the trails.
At General Wingate’s behest, Prime Minister Winston Churchill asked President Franklin D. Roosevelt to provide American air support for another incursion. The two officers were authorized by General Arnold to acquire as many aircraft and men as needed to insert British forces behind Japanese lines, to set up airfields to supply them and to evacuate the wounded.
“They wrote the playbook to do this on the fly, because nobody had ever done this before,” said Douglas Birkey, director of government relations for the Air Force Association, which promotes education about air power. “Cochran and Alison are considered the grandfathers of the U.S. Air Force Special Operations Command” — its elite combat unit.
Several hundred men and 348 aircraft — including C-47 transports, Waco CG-4A gliders, P-51 fighters and B-25 bombers — were assigned to the mission.
On March 5, 1944, 80 gliders were towed by the transports, two attached to each transport, over 8,500-foot mountains. They delivered 539 British soldiers and 66,000 pounds of equipment to a gully-pitted glade 165 miles inside Burma, known as Broadway. The operation ran for six days and nights, bringing in 9,052 troops, 1,282 pack mules and half a million pounds of supplies.
“In terms of guarding India, it was tremendously successful because the Japanese were distracted by having to deal with the guerrilla incursion,” Mr. Birkey said. “This really did mark the last point at which the Japanese could have expanded their empire in Asia.”
Colonel Alison led the mission on its first day, landing a glider bearing 15 soldiers in the glade.
Among his many decorations are the Distinguished Service Cross and the Distinguished Service Order presented by King George VI of Britain.
John Richardson Alison was born in Micanopy, Fla., on Nov. 21, 1912, to Grover and Edelweiss Alison. His sights were set after a barnstormer took him on a flight as a teenager, his son David said.
Besides David, Mr. Alison is survived by his wife of 60 years, the former Kathleen Arcidiano; another son, John; and three grandchildren.
Soon after graduating from the University of Florida with a degree in engineering in 1936, Mr. Alison enlisted in the Army. He was sent to London in the spring of 1941 as a technical adviser to the Royal Air Force. But he wanted to be in combat, and in July 1942 he was assigned as deputy commander of the 75th Fighter Squadron in China.
Two years after the war, when President Harry S. Truman appointed him assistant secretary of commerce for aeronautics, The New York Times wrote, “As Major Alison, according to dispatches in July 1942, he scored one of the most spectacular individual performances by the Air Forces in China by shooting down two of three Japanese bombers out of a nine-plane squadron that was raiding Hengyang in Hunan Province.”

Os obituários da Folha, portanto, não têm NADA a ver com os originais do NYT em termos de estilo, e não passam de uma emulação simiesca do jornal americano. São meras cópias mal digeridas de uma qualidade jornalística que o Brasil não alcança nem em sonho.

A contradição escancarada é que o jornalismo americano é feito por profissionais cultos, bem formados e inteligentes, que compreendem que o respeito ao veterano é inegociável, independente de uma postura contrária às decisões governamentais. É aceitável que um jornal seja contra a guerra no Iraque e apoie os combatentes daquela guerra. O problema mais grave é que no caso de um veterano como Gratagliano, a luta foi contra o Nazismo, regime em que gente como Willian Vieira seria forçada a lamber botas de oficiais da Gestapo, antes de ganhar uma bala na nuca.

Conclusão óbvia: o jornalismo brasileiro “misturou os sinais”. Na compreensão tosca, indigente e tacanha que possuem de “jornalismo ágil e moderno”, os mazombos da Folha não hesitaram em ridicularizar a figura do veterano de guerra – algo que associam a um ideário bolorento. Essa bisonha compreensão de “moderno” personificada no texto do jornal é orientada pela oposição àquilo que o veterano representa: um homem que, armado, vestiu uma farda e lutou por seu país. A partir de uma visão bronca e chinfrim que mantêm da história, Willian e Sukiaky reduziram a memória de Gratagliano a um arremedo caricato de sua real figura – e isso porque tentavam retratá-lo com verossimilhança. A forma que o jornal encontrou para contar sua história foi o escárnio. Típico de trogloditas travestidos de intelectuais. E é assim que entrarão para a história.

Prof. Dennison de Oliveira no Museu do Expedicionário

Posted in Saiu na imprensa... on maio 18, 2011 by ccmaximus

Comentando alguns trechos da resenha do “Barbudos”

Posted in História da FEB, Livros, Saiu na imprensa... on abril 25, 2011 by ccmaximus

Depois de algumas semanas da publicação da resenha na FSP, hoje conversei com um colega de profissão que me perguntou por que eu tinha julgado que o texto do jornal havia sido impreciso. Cito aqui alguns trechos, com comentários. Lógico, essa polêmica só interessa a meia dúzia de historiadores e demais interessados na história da FEB. Para o resto da humanidade, a discordância com o jornal já se trata de algo insignificante e esquecido.

“A posição ajuda a explicar a falta de preparo dos brasileiros que foram lutar na Itália, conforme novas pesquisas estão revelando.
Elas mostram que os pracinhas mal sabiam usar as armas que recebiam do exército americano. Deixam claro, ainda, que os aliados chegaram a ficar preocupados com a pouca experiência dos colegas que chegavam para lutar na guerra.”

As “novas pesquisas” não estão revelando que os brasileiros chegaram despreparados à Itália. A falta de treinamento da FEB já é conhecida desde o tempo da guerra, e Mascarenhas de Moraes discutiu bastante o assunto em 1947. O que o livro procura explicar e avaliar são as razões deste despreparo. De onde elas teriam se originado? Da incapacidade dos soldados em aprender? Da suposta sabotagem à FEB, causada pelas omissões de parte da liderança militar em apoiar o preparo da expedição (algo que Mascarenhas também denunciou em 1947)? Da doutrina francesa?

E a respeito da falta de proficiência com as armas, não há explicação sobre em qual momento da campanha o problema foi mais evidente – algo que é uma discussão fundamental no livro. Quais armas eram desconhecidas? Por qual unidade da FEB? Por quê? Quando? Essas são perguntas que um historiador profissional não deixaria de fazer, ao tentar entender um tema tão delicado.

Além disso, parte considerável do livro tenta entender como a correção destes problemas foi conduzida. “Pouca experiência” de uma tropa que acabou de chegar à guerra é claramente um oxímoro. O desempenho em combate precisa, necessariamente, ser entendido ao longo do processo de aquisição de experiência, instrução pré e pós engajamento no front.

“Um desses documentos mostra que, em 1945, os americanos reclamavam que as deficiências de treinamento dos brasileiros causavam baixas desnecessárias às forças aliadas.

A motivação da bronca tinha sido um erro pueril cometido em 12 de dezembro de 1944 por um grupo de combate da FEB. Os brasileiros invadiram uma casa cheia de alemães, matando todos os inimigos.

Partiram, no entanto, sem inspecionar o porão. Um único soldado alemão ficara escondido por lá. Após a “lamentável negligência”, ele, sozinho, metralhou 17 brasileiros pelas costas, matando todos eles.”

O documento citado não é originário dos observadores americanos. O livro identifica claramente a autoria do relatório: foi emanado da Infantaria Divisionária, e é assinado pelo General Zenóbio da Costa. Qualificar como “erro pueril” um incidente de combate que custou a vida de DEZESSETE SOLDADOS, além de maldoso, é um tipo de julgamento que o livro faz questão de evitar. O aspismo ao citar a “lamentável negligência” não deixa claro se a expressão provém do livro. Na verdade, ela é uma citação textual do próprio documento brasileiro.

A menção desconexa feita ao documento reproduzido no jornal também desconsidera um fator importante para sua interpretação, que é o fato do incidente ter envolvido uma fração de tropa ainda sem treinamento completo, mas que apresentou alto nível de agressividade na ocasião. Esse pormenor deve ser considerado quando se procura entender o desempenho em combate da tropa brasileira nos primeiros ataques ao Monte Castello e os problemas de treinamento que envolveram a formação da divisão.

Há mais coisas, mas vou parar por aqui.

Conferencistas confirmados para o II SESFEB

Posted in Guerra no Mundo Contemporâneo, História da FEB, Memórias da FEB, Memórias de Guerra, Nova História Militar, Saiu na imprensa... on abril 20, 2011 by ccmaximus

A Comissão Científica do evento informa que estão confirmadas as participações dos seguintes conferencistas no II SESFEB:

Antonio Pedro Tota – O Imperialismo Sedutor: a americanização do Brasil na Segunda Guerra Mundial

Cesar Campiani Maximiano – A literatura de guerra brasileira e os combates por Monte Castello

Dennison de Oliveira – A campanha da FEB no Vale do Rio Sercchio à luz da arqueologia

Francisco Ferraz – Tão próximos, tão distantes: o pós-guerra dos ex-combatentes do Brasil e dos Estados Unidos

Vagner Camilo Alves – O Brasil e a Segunda Guerra Mundial: autonomia na dependência?

A Comissão também deliberou convidar o cineasta Durval Júnior, produtor e diretor do documentário O “Lapa Azul” – Os homens do III Batalhão do 11o. RI na II Guerra Mundial (2007) para exibir seu filme no II SESFEB e proferir conferência relativa ao tema Os Documentários da FEB.

Finalmente, a Comissão Científica do II SESFEB deliberou que a inscrição de Alfredo Salun como candidato à apresentador de trabalho seja invalidada e imediatamente transformada em convite para que ministre conferência no evento. Alfredo Salun é autor, dentre outras importantes obras, de “Zé Carioca” vai a guerra: histórias e memórias sobre a FEB. São Paulo, Pulsar, 2004.

http://iisesfeb.blogspot.com/2011/04/conferencistas-confirmados-para-o-ii.html

Idiotices de Sarney sobre o desarmamento

Posted in Saiu na imprensa... on abril 12, 2011 by ccmaximus

E com as campanhas de desarmamento, uma quantidade impossível de ser precisada de armas antigas, troféus de guerra e demais peças que deveriam estar em museus ou coleções particulares irão acabar nas fornalhas dos bombásticos shows de destruição de armas.

“A decisão popular que aprovou a venda de armas no país, devemos modificar isso. Acho que foi um erro e a população foi induzida ao erro porque estamos verificando que a venda de armas no país de nenhum modo alcançou o que julgavam, garantir segurança ao cidadão. Ao contrário, torna-o mais vulnerável porque, cada um que tem arma passa a ser objeto de procura dos bandidos e infratores para com essa arma cometer crimes que a sociedade tanto repudia” Isso é o que diz o Sarney, que pensa que o Brasil inteiro é o Maranhão, onde ele manda e desmanda. Para ele, é óbvio que a opção coletiva do plebiscito de 2005 estava equivocada e que o déspota esclarecido sabe o que é melhor para nós.

Quer dizer que um ladrão, se precisar escolher entre duas casas, vai optar pela residência do proprietário que tem condições de se defender, e não do que está desarmado? Quer dizer que os criminosos dependem do cidadão comum para conseguir suas submetralhadoras e fuzis de assalto que empregam contra a polícia, em arrastões a condomínios e assaltos a bancos?

Vamos entrar em um acordo: se os jagunços que acompanham o Sarney se desarmarem, os cidadãos que possuem armas legais também deverão entregar suas armas devidamente registradas.

Fácil tripudiar sobre a segurança alheia quando se é o coronel bem protegido de um dos mais miseráveis estados da União.

Matéria da Istoé sobre o filme de Vicente Ferraz

Posted in Entrevistas, Filmes, História da FEB, Memórias da FEB, Saiu na imprensa..., Segunda Guerra Mundial on abril 8, 2011 by ccmaximus

http://www.istoe.com.br/reportagens/131116_A+LUTA+DOS+PRACINHAS

A luta dos pracinhas
O filme “A Montanha” mostra as agruras vividas pelos soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial e a integração racial do pelotão
Ivan Claudio

FRIO E QUEDA
O ator Francisco Gaspar como Piauí: as botas nacionais não eram feitas para andar na neve

Nas encostas dos Apeninos, na Itália, o inverno costuma ser rigoroso, com madrugadas cravando temperaturas inferiores a 15 graus negativos. Eis o que diz o ex-pracinha Antonio Amarú, um dos 25 mil soldados brasileiros que lutaram na Campanha da Itália durante a Segunda Guerra Mundial e, portanto, pernoitou bastante no local: “Usava seis blusas de lã por baixo do field jacket americano, um par de luvas de lã e por cima um par de luvas impermeáveis, ou perderia a mobilidade nos dedos.” Seu depoimento poderia ter sido dito pelos atores que passaram sete semanas nas mesmas condições ao filmar o longa-metragem “A Montanha”, o primeiro filme de ficção a tratar da participação da Força Expedicionária Brasileira no conflito, cujas gravações se encerraram na semana passada. Dirigido por Vicente Ferraz, a produção procura ser fiel a histórias de jovens como Amarú, na época com 25 anos. Eles experimentaram o pior inverno do século na região. Da Itália, por telefone, o ator Daniel Oliveira, que se protegeu nas filmagens com duas malhas e duas meias térmicas, teve a exata sensação das agruras enfrentadas pelos soldados brasileiros: “No set a gente usou botas antigas e a ardência provocada pela neve foi imediata. Dá para imaginar a dificuldade deles.”

“Me interessei pelo lado humano do conflito ao
ler os diários e os relatos feitos pelos pracinhas”
Vicente Ferraz, diretor

Oliveira interpreta Guima, um soldado especializado em desarmar minas. No filme, ele faz companhia aos soldados Tenente (Julio Andrade), Piauí (Francisco Gaspar) e Laurindo (Thogun). Vítimas de um ataque de pânico, os quatro se encontravam perdidos e passam a ser considerados desertores. Nessa situação, travam contato – e têm uma relação de quase amizade – com dois outros fugitivos do campo de batalha: o italiano Roberto (Sergio Rubini), da Resistência, e o alemão Jurgen Mayer (Richard Sammel). Segundo Ferraz, esse encontro não está nos livros e nasceu, obviamente, de sua imaginação. “Não tenho a pretensão de reescrever a história”, diz o diretor. O enredo, contudo, é plausível. Depoimentos de pracinhas registram o contato com desertores nazistas e a convivência amistosa com prisioneiros da artilharia germânica. Em “A Montanha”, quem se depara com o alemão Mayer é o soldado Piauí, vivido por Gaspar. Ele se solidariza com o nazista ferido nos pés e o carrega numa bandiola pela neve. “Imagina só, eu com 1,65 metro de altura e 58 kg puxando um alemão de 1,90 metro. Eram cenas muito difíceis, tínhamos que andar com gelo até o joelho.”

COMPANHEIRISMO
Abaixo, os atores Daniel Oliveira (Guima) e Thogun (Laurindo):
convivência entre brancos e negros surpreendeu os americanos

Como pisava pela primeira vez na neve, Gaspar conta que escorregava bastante nas superfícies mais lisas. “As botas usadas pelos pracinhas não eram feitas para andar lá. Nos primeiros dias, levei muitos tombos”, diz. Não só a bota como também o uniforme. Segundo Gaspar, o filme é bem fiel nesse aspecto ao colocar cada ator usando uma farda diferente, todas do Exército americano. O figurino é original e foi alugado de colecionadores. Embora o elenco tenha recebido treinamento de exercício de montanha e técnicas de desmontagem de minas no Batalhão de Engenharia de Pindamonhangaba, a trama foge dos clichês do gênero e não mostra tantos tiros e explosões. “Me interessei mais pelo dia a dia e me afastei do lado perverso da guerra”, afirma Ferraz, que entre os 20 livros consultados incluiu diversos relatos de ex-pracinhas. Para se livrar da servidão à realidade, preferiu nem filmar em Monte Castello e evitar, assim, qualquer referência ao local onde se deram os maiores conflitos entre brasileiros e alemães. “Na preparação, contudo, passamos pela região. Foi para dar um axezinho”, diz Oliveira. Ao visitar uma das pequenas cidades libertadas pelos pracinhas, a equipe encontrou um velhinho que era criança naquela época. Olhando para Thogun, ele se lembrou que foi na guerra que viu um negro pela primeira vez. Livros recentes, como “Barbudos, Sujos e Fatigados”, de Cesar Campiani Maximiano, consultor do filme, mostram que a integração racial do Exército brasileiro chamou a atenção também dos americanos, ainda bastante racistas durante a guerra. Esse é outro detalhe que o filme não se esqueceu de ressaltar.

Barbudos, Sujos e Fatigados e a matéria da Folha de São Paulo.

Posted in História da FEB, Memórias da FEB, Saiu na imprensa... on abril 4, 2011 by ccmaximus

O quanto um repórter lê antes de escrever uma matéria sobre história ou ciência? Estaria o articulista ciente das divergências teóricas e metodológicas existentes entre os pesquisadores que ele consultou e os que deixou de consultar? Se o assunto for história, o jornalista precisa ter conhecimento das problemáticas que envolvem um determinado tema, antes de se ocupar em escrever sobre ele?

Em uma situação ideal, as perguntas acima seriam todas pertinentes. Mas elas não se aplicam à realidade do jornalismo sobre história no Brasil. O que os pesquisadores que incorrem no risco de terem seus trabalhos “analisados” por jornalistas podem esperar, no máximo, é que os profissionais de imprensa ao menos entendam o que está escrito em um livro, tese ou artigo científico. Manter a expectativa de que o jornalista tenha conhecimento das demais publicações que versam sobre o tema tratado pelo pesquisador já é querer demais. Sim, o que quero dizer é que, com sorte, o autor de um livro vai ter sua obra resenhada por alguém que compreendeu minimamente a proposta do trabalho – e para isto, é necessário algo raro neste país, chamado “compreensão de texto”.

Desta maneira, uma matéria inconseqüente da Folha de São Paulo apresenta o “Barbudos, Sujos e Fatigados” como mais uma sandice objetivada a denunciar os soldados brasileiros como trapalhões, jogando vinte anos de pesquisa no esgoto. A matéria lança por terra a credibilidade deste autor, reforçando certa opinião sobre a qualidade dos soldados brasileiros que o livro chega a desmentir, por meio de documentação.

E não estou preocupado com os comentários da vala comum de ignorância da versão online do jornal. Para quem não sabe, nem tudo correu bem na organização da FEB. Parte dos problemas originou-se da incompetência de oficiais. Pois é, alguns generais brasileiros foram bons, outros nem tanto. E este autor não deixa uma crítica de fora de seus trabalhos de pesquisa, se tiver razões suficientes para crer que ela está bem fundamentada. A questão da inadequação da matéria no jornal nem diz respeito às menções sobre as deficiências de treinamento da FEB, as quais Mascarenhas de Moraes foi o primeiro a reconhecer, já em 1947.

Mas é frustrante perceber que nem mesmo quem supostamente pertence à classe letrada no Brasil consegue entender um texto relativamente simples com facilidade – imagine se chegam ao ponto de transitar tranqüilamente entre as discussões historiográficas avançadas.

Os problemas não se resumem ao despreparo e inépcia da garotada que sai da faculdade e é incumbida de escrever para milhões de pessoas. Há casos de mau jornalismo, puro e simples.

Já li em uma revista de história da editora Abril que “Júlio César teria lutado contra Aníbal”. Se isso não soa como prova de cabal ignorância histórica para você, eis o absurdo: a bagatela de duzentos anos separa as vidas dos dois. E passou batido. E na edição seguinte, o mesmo jornalista já estava escrevendo besteira sobre outro assunto.

Esses caras não só não entendem o que lêem. Também não entendem o que escrevem.

Quais os critérios do MinC?

Posted in Livros, Saiu na imprensa... on março 21, 2011 by ccmaximus

Como alguém que vive de atividades que remotamente podem ser ligadas à esfera do “cultural”, não deixo de me espantar com o hábito de artistas brasileiros acreditarem que o Estado deve ser o grande fiador do seu trabalho. Obviamente essa impressão foi aumentada com o fato de Maria Bethânia, que no mínimo vive confortavelmente com a renda de shows e venda de CDs, arrogar-se a necessidade de dinheiro público para um projeto pessoal. A discussão ficou divertida com menções a uma suposta “elite branca paulista”, especialmente para este autor que descende de humildes imigrantes italianos que fugiram da fome e precisaram disputar restos de comida com os ratos nos porões do navio que os trouxe ao porto de Santos.

Absorto na leitura de relatórios datados de fevereiro de 1945 já há uns bons dias, confesso que estava alheio a esse quiproquó, para o qual minha atenção foi despertada pelo meu amigo Joaquim Ghirotti, também um carcamano.

Nos últimos dias li textos de blogs de uma variedade de tendências políticas discutindo com propriedade o acinte que consiste em financiar com dinheiro público uma série de declamações de poesia que seriam filmadas e postadas na Internet. Do total aprovado no projeto, 600 mil reais seriam destinados à própria cantora. Sem menção de pagamento dos direitos dos poetas, esses sim autores dos poemas. É uma quantidade de dinheiro que a maioria dos brasileiros sequer jamais vai ver.

Não sou totalmente desfavorável à idéia de que projetos culturais sejam financiados com dinheiro público. Mas o que eu gostaria de ver seria a aprovação de projetos de artistas e autores iniciantes, sem vínculos com as panelas da produção cultural. O mais incrível é que vários produtos financiados com dinheiro público nem chegam a ser oferecidos para venda aos potenciais interessados: são dados como presentes institucionais aos altos escalões das empresas e fundações que os financiam, em rapapés de lançamento secretos para os quais a plebe jamais é convidada. Suponho que os “refreshments” das festinhas também entrem no orçamento do “projeto”.

Posso me dar por feliz, pois já publiquei razoavelmente, sem jamais ter utilizado um centavo de dinheiro público. Sim, o IRMÃOS DE ARMAS tem um selo da Lei Rouanet, mas está disponível no site do MinC o total de dinheiro captado para o projeto: zero. Não foi preciso auxílio para a publicação do livro, pois seu orçamento era baixo. E de qualquer maneira, a renda do livro foi destinada à Associação dos Ex-Combatentes de São Paulo.

Por outro lado, conheço um bom punhado de autores brilhantes, responsáveis por pesquisas produzidas tanto na academia quanto fora dela, que têm seus trabalhos de história apanhando poeira por falta de editoras que se interessem – mas principalmente, por falta de conhecer os “canais” que possibilitem o tal apoio. E não há como negar: em quaisquer circunstâncias, os critérios de aprovação dos trabalhos a serem considerados aptos para receber dinheiro serão sempre nebulosos. Quem decide afinal qual obra tem mérito e merece ser levada adiante? Sob quais parâmetros?

Em condições ideais, o que deveria definir o ciclo de vida de uma obra é sua qualidade: livros, filmes e demais produtos sobreviveriam porque são bons e suscitam interesse. Quem deseja viver da autoria de livros precisa entender que essa pretensão demora anos para se concretizar, e que com freqüência isso demanda um grau de dedicação obsessivo e monástico, se é que algum dia você deseje pagar suas contas com o que recebe dos direitos autorais. A não ser que você tenha uma história tão boa quanto a da Bruna Surfistinha.

Longe do meu gosto musical, Maria Bethânia é de qualquer forma uma artista de primeiro time. Ela tem fãs suficientes que podem garantir a solidez de mercado de qualquer coisa que produza. Infelizmente, o mundo do financiamento dos projetos culturais continua sendo um mar de encouraçados onde de vez em quando se arriscam alguns caça-minazinhos.