Pela ótica dos adversários

Coloco aqui texto publicado no Caderno Mais! do dia 1 de abril de 2001, tratando de memórias de guerra de alemães e italianos que fazem menção à FEB.

Estudos publicados na Itália e Alemanha reavaliam a atuação da Força Expedicionária Brasileira na 2ª Guerra
Pela ótica dos adversários

 

Cesar Campiani Maximiano
especial para a Folha

A o entrevistar os principais generais alemães no imediato pós-guerra, o historiador militar inglês sir Basil Liddell Hart escolheu o sugestivo título de “O Outro Lado da Colina” para seu livro, que esclarecia alguns eventos do conflito do ponto de vista dos antigos inimigos. A expressão que inspirou o título é bastante adequada no caso dos alemães e italianos que das cristas dos Apeninos enfrentaram a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Até recentemente, pouco se sabia a respeito dos adversários da FEB na Itália. Entretanto recentes publicações na Alemanha e Itália, de autoria de antigos membros de unidades que estiveram diretamente em contato com a FEB, fornecem uma nova avaliação da opinião dos antigos inimigos. “Bomber, Jabos, Partisanen Die 232 – Infanterie-Division 1944-45 in Italien” (Bombas, Caças-Bombardeiros, Guerrilheiros da Divisão de Infantaria 232 em 1944-45 na Itália) é o título do livro sobre os principais adversários dos brasileiros na Itália. Bombardeiros, aviões de caça, guerrilheiros. Uma tríade tristemente guardada na memória de muitos veteranos alemães. A despeito do título, a maior parte dos capítulos do livro é dedicada à 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária da FEB e à 10ª Divisão de Montanha americana, principais adversárias da 232ª. Um dos capítulos chama-se “Die Brasilianer und der Monte Castello” (Os Brasileiros e o Monte Castello), sobre a tomada do monte em 21 de fevereiro de 1945. Outros destaques são os combates por Montese e as derrotas da FEB nos primeiros ataques a Monte Castello. Em comum com as memórias de guerra brasileiras, a obra possui trechos a respeito do rigor do inverno apenino, das adversidades que os combatentes encontravam na guerra de montanha e nas duras missões de patrulha na neve. No livro “La Guerra sulla Linea Gotica Ocidentale” (A Guerra na Linha Gótica Ocidental), de 1999, o veterano italiano Cesare Fiaschi, da Divisão Alpina Monterosa, que esteve frente a frente com os brasileiros no início da campanha da FEB na Itália em outubro de 1944, recorda alguns combates contra brasileiros. É interessante a visão que antigos fascistas guardaram dos expedicionários da FEB. Até hoje influenciado pela propaganda do tempo da guerra, Fiaschi tece considerações a respeito de os brasileiros haverem combatido na Itália puramente em defesa de interesses americanos. Essa opinião, no entanto, não desmerece o juízo do autor quanto à capacidade da FEB: Fiaschi elogia a tenacidade dos expedicionários que combateu, chamando-os de “oponentes honrados”, e, juntamente com outros veteranos italianos, não esquece o fato de, quando da rendição da Divisão Monterosa a tropas da FEB em abril de 1945, os brasileiros prestarem honras militares aos soldados que marchavam em direção ao cativeiro, impedindo que os prisioneiros fossem sumariamente fuzilados por guerrilheiros.

Abandono dos ex-combatentes
Menções ao bom tratamento dispensado pelos brasileiros aos inimigos capturados existem em ao menos dois outros livros publicados na Itália por antigos adversários da FEB. Uma surpresa no livro de Fiaschi é um trecho dedicado ao abandono dos ex-combatentes brasileiros no pós-guerra. Seria interessante descobrir como a falta de assistência aos expedicionários da FEB alcançou repercussão entre os veteranos italianos. Ao contrário da grandiloquência com que o episódio costuma ser descrito em cerimônias e textos militares, e do extremo oposto derrogatório oferecido por William Waack em “As Duas Faces da Glória” (ed. Nova Fronteira) e pelo vexaminoso filme de Sílvio Back, “A Rádio Auriverde”, as obras de Boucsein e Fiaschi ajudam a provar que, independentemente da sua importância no contexto do planejamento das operações militares em grande escala, todas as experiências de guerra marcaram indelevelmente as memórias daqueles que combateram. A participação brasileira na guerra foi depreciada pelo fato de os brasileiros não terem combatido num teatro de operações de relevância estratégica, sem levar em consideração que as condições que os soldados enfrentavam eram idênticas em quaisquer das frentes de batalha da Europa, embora entre os veteranos exista o consenso de que a Itália foi um dos campos de batalha que mais dificuldades apresentou. Documentos do Serviço Médico do Exército americano revelam que a taxa de brasileiros baixados por doença e problemas dentários era equivalente à média das divisões norte-americanas. O número de brasileiros baixados por doenças foi utilizado como argumento para atestar a inaptidão da FEB, mas tanto brasileiros quanto americanos e alemães foram hospitalizados aos milhares durante o inverno de 1944. Por sua vez, a própria insistência das Forças Armadas em considerar a FEB como integrante primordial do esforço de vitória aliado e a consubstanciação simbólica de todas as virtudes do militar brasileiro na conquista de Monte Castello serviram mais para aumentar a aura de desconfiança em torno do assunto do que para consolidar uma memória de caráter laudatório.

Aura de desconfiança
Ao se tornar inquestionável quanto à eficiência e glória do ponto de vista dos militares, a campanha da FEB na Itália atraiu reações de descontentamento com o regime militar que erroneamente acabaram atingindo os brios de milhares de veteranos humildes. A escolha do episódio pelo Exército Brasileiro para figurar como peça do mecanismo proselitista da instituição é compreensível, já que se trata da única glória militar do século 20.
Do ponto de vista de italianos e alemães, a FEB desperta bem menos paixões. Devido ao fato de serem os brasileiros apenas mais uma nacionalidade na lista de adversários que tiveram durante a Segunda Guerra Mundial, não há a necessidade de engrandecer nem menosprezar o fato. Diante de tais tentativas de encontrar sentidos mais amplos no episódio, livros como o de Fiaschi e Boucsein fogem ao costumeiro mau hábito da história militar tradicional de transformar toda e qualquer batalha em glória nacional.


Cesar Campiani Maximiano é doutorando em história na USP e autor de “Onde Estão Nossos Heróis – Uma Breve História dos Brasileiros na 2ª Guerra” (ed. Atlas).

Bomber, Jabos, Partisanen
219 págs., 68 marcos de Heinrich Boucsein. Ed. Kurt Vowinckel-Verlag (Alemanha)La Guerra sulla Linea Gotica Occidentale
276 págs., 21,69 euros de Cesare Fiaschi. Ed. Lo Scarabeo (Itália).

4 Respostas para “Pela ótica dos adversários”

  1. César Westin Says:

    Srs.
    O texto, pequeno em relação à quantidade de palavras, acabou dando a impressão de longo e pouco ou nada acrescentou à participação do Brasil na Itália, muito menos sobre a rendição da Divisão Monterosa.
    Cordialmente,
    César WEstin

  2. Ararigbóia Says:

    Justamente porque não se trata de um texto sobre o Brasil na Itália, mas sim de um texto sobre como os alemães e italianos se recordam de seus inimigos.

  3. César!
    é ten Biajone, tudo bem? gostaria muito de entrar em contato contigo via email para submeter um manuscrito para publicação em livro, escrito por mim e meus alunos da EsPCEx sobre historia de vidas de pracinhas campineiros. Que email posso mandar para vc? Gostariamos muito que apreciasse a obra e a prefaciasse.

    Atenciosamente e grato

    ten biajone
    biajone@yahoo.com (sem br)

  4. Gunther Heinzel Says:

    Uma publicação tendo a frente um acadêmico da USP, local da gestação intelectual do PT e da introdução do Grampchi , no Brasil , é suspeito, para dizer o mínimo. É inevitável desconfiar de motivações de caráter ideológico em afirmações depreciativas quanto a atuação da FEB. Não quero parecer ufanista, evidente que nosso pessoal enfrentou dificuldades, nossas melhores tropas estavam próximas a Argentina e não na Europa, nesse período; apenas ressalvo que brasileiros(as) sérios, decentes ( ou seja, não esquerdistas) devem sempre desconfiar de publicações da USP ou de universidades brasileiras , de maneira geral .

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: