Arquivo para outubro, 2008

Novas perspectivas para a história da FEB.

Posted in História da FEB on outubro 18, 2008 by ccmaximus

Com exceção dos livros produzidos por veteranos, conta-se nos dedos a literatura sobre a FEB de autoria de quem não participou da Campanha da Itália. Entre estes estão os trabalhos de Maria de Lourdes Ferreira de Lins, Ricardo Bonalume Neto, Francisco César Alves Ferraz, Alfredo Oscar Salun, William Waack e um punhado de teses acadêmicas que, devido à mediocridade do mercado editoral nacional, infelizmente não saíram das prateleiras das bibliotecas departamentais, como a excelente dissertação de Luís Felipe da Silva Neves. Recentemente, o material disponível sobre a FEB foi arejado pelas pesquisas de Dennison de Oliveira, professor da UFPR, especialmente com a publicação de Os Soldados Alemães de Vargas. Oliveira inova a literatura justamente por não propor mais uma abordagem geral dos aspectos já discutidos sobre a campanha, partindo para uma análise de características específicas da tropa brasileira (no caso deste livro, o fato de muitos descendentes de alemães terem sido incorporados à FEB).

E a historiografia da FEB carece justamente de tais abordagens particularizadas: não há nenhum estudo de avaliação comparativa entre as divisões americanas e a divisão brasileira, nem mesmo um estudo do desempenho comparado dos três regimentos de infantaria. Uma vez que a discrepância de preparação das unidades expedicionárias foi profunda, é bem possível que os estágios diferentes de treinamento tenham influenciado a atuação dos três regimentos.

Os combates mais famosos carecem igualmente de estudos mais aprofundados: apesar da importância de Monte Castello e Montese para a história da FEB, não há pesquisas que tenham dedicado maior atenção a tais episódios. As demais unidades permanecem ignoradas: fora os livros escritos por veteranos, não há estudos sobre o serviço médico ou religioso, ou sobre o Esquadrão de Reconhecimento.

A possibilidade de produzir uma historiografia mais completa e abrangente sofre também de um problema de ordem documental: os próximos dez anos serão cruciais para a preservação da história da FEB: desde o início do século XXI, o número de veteranos tem decrescido de forma drástica. Ainda há muitos aspectos da Campanha da Itália cujos únicos registros remanescentes consistem da memória individual dos participantes. Sem projetos sistemáticos de entrevistas com veteranos seguindo os métodos da história oral, uma importante parcela da história da FEB vem se perdendo.

Entrevista com Niall Ferguson

Posted in Entrevistas on outubro 17, 2008 by ccmaximus

Eu conheço principalmente os trabalhos historiador britânico Niall Ferguson referentes à Primeira Guerra Mundial (The Pity of War) e um outro extenso trabalho sobre conflitos do Século XX (War of the World). Espero o dia em que serão publicados no Brasil. Segue abaixo link para uma entrevista algo datada com Ferguson, em que comenta assuntos pertinentes ao seu primeiro trabalho publicado no Brasil, A Lógica do Dinheiro.

Trecho: As pessoas que se intitulam como antiglobalização basicamente não entendem de economia. É difícil debater com essa gente, eles não entendem as vantagens do livre comércio, não entendem que os países pobres precisam de dinheiro das nações ricas, não entendem o básico, não leram nem “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith. Então, quando as pessoas dizem “que ótimo seria uma desglobalização”, eu respondo: cuidado com o que você deseja, porque você pode receber. Depois de passar por uma Grande Depressão, venha conversar sobre o que você acha da desglobalização.

http://www2.flem.org.br/noticias/2005/04/04/fsp0800000020050404EntrevistaNiallFergusonHistoriadorveriscodedesglobalizacao.htm

Teorias da Guerra de Quarta Geração.

Posted in Guerra no Mundo Contemporâneo on outubro 15, 2008 by ccmaximus

Em vista de algumas discussões com alguns alunos ocorridas nos últimos dias, posto aqui alguns links para textos sobre a “Guerra de Quarta Geração”, um conceito que foi elaborado por William Lind. A Military Review tem um PDF dele (em português) aqui:

http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/MR%20WSLind.pdf

E o jornal Defesa e Relações Internacionais tem mais aqui:

http://www.jornaldefesa.com.pt/conteudos/view_txt.asp?id=165

Quem quiser ler em inglês procure aqui:

http://globalguerrillas.typepad.com/globalguerrillas/2004/05/4gw_fourth_gene.html

Brasil na guerra – cores.

Posted in História da FEB on outubro 14, 2008 by ccmaximus

Dois websites trazendo fotos coloridas de brasileiros na Itália, principalmente da FAB. Tratam-se das fotos que Jon Gawne localizou no National Archives no final dos anos 90.

http://www.historylink101.com/ww2_color/index.html

http://www.ww2incolor.com/brazil/?g2_page=1

Mais confusão sobre Monte Castello.

Posted in Saiu na imprensa... on outubro 14, 2008 by ccmaximus

O texto que segue abaixo saiu no Correio Brasiliense em agosto de 2008. Há alguns trechos bastante estranhos. Meus comentários estão em azul, intercalados ao texto do Correio Brasiliense.

Depois da frustração, a conquista

Edson Luiz

Terceira parte da série de reportagens baseada em documentos secretos da FEB revela que erro tático norte-americano quase provocou massacre de pracinhas em Monte Castelo


Quais documentos são esses? Desde o final dos anos 70 que não existem mais documentos “secretos” sobre a FEB. Toda a classificação dos papéis nos arquivos já caducou, e o material disponível nos EUA e Inglaterra já foi razoavelmente analisado por vários pesquisadores. Confesso que li apenas a versão online da série de reportagens – não sei se na versão impressa havia menção mais clara do documento citado. No entanto, o mesmo conteúdo já foi publicado no livro “A FEB Pelo Seu Comandante”, organizado sob a cura de Mascarenhas de Moraes e lançado no Brasil em 1947.


O general João Batista Mascarenhas de Moraes, comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), é chamado pelos chefes do Exército americano. Ele vai ao encontro acompanhado pelos generais Euclydes Zenóbio da Costa e Oswaldo Cordeiro de Faria. Horas antes, as tropas aliadas tinham sido repelidas pelos alemães, mais uma vez, em Monte Castelo, onde, por um erro tático dos Estados Unidos, quase todos os combatentes brasileiros foram massacrados pelos inimigos. A terceira parte da série de reportagens baseada em documentos secretos da FEB descreve esse tenso encontro e a reviravolta na sorte dos pracinhas brasileiros.

Então o quase consumado massacre dos soldados brasileiros foi devido a um erro tático dos americanos? Como, se o planejamento tático dos ataques de 29 de novembro de 12 de dezembro ficou sob o comando da FEB? E os alemães? Não teriam sido eles os responsáveis pela eficácia da defesa?

“Julga que, diante da missão dada à 1ª. DIE (Divisão de Infantaria Expedicionária), que a tropa brasileira tem capacidade ofensiva?”, perguntou o major-general Willis D. Crittenberger, comandante da IV Companhia do Exército americano. O clima fica tenso. “A pergunta foi cruel e decisiva para a sorte da divisão”, afirmou Mascarenhas de Moraes em um dos relatórios secretos sobre a guerra. O comandante brasileiro ainda fez menção de responder, mas Cordeiro de Farias e Zenóbio da Costa interviram e sugeriram que Crittenberger fizesse a pergunta por meio de ofício, o que aconteceu no dia seguinte. O documento foi respondido por nossos generais, que sugeriram uma série de mudanças na tática adotada pelos aliados.

Até aqui, não há nada de novo, para não dizer “secreto”. A narrativa detalhada das conferências de Mascarenhas e seus generais com o comandante do IV Corpo de Exército (e não “IV Companhia”) é tão antiga quanto os primeiros livros publicados por veteranos na década de 40.

A primeira batalha em Monte Castelo aconteceu em 24 de novembro de 1944. A FEB atuou com o Task Force 45 americano, mas não obteve êxito. “Começávamos a criar assim, a lenda sobre Monte Castelo, que atraía para si o prestígio de posição inexpugnável”, descreveu Mascarenhas de Moraes no relatório. No dia seguinte, um novo combate, outra derrota e cresce o estado de depressão das tropas, repelidas por tanques inimigos.

O mesmo texto existe no livro de 1947 publicado sob a cura de Mascarenhas, em versão praticamente ipsis literis.

“Essas duas operações não foram convenientemente preparadas pelo comando americano, que na ansiedade de atacar de qualquer maneira não concedeu o tempo necessário para os reconhecimentos da infantaria e da artilharia”, diz o relatório de Mascarenhas de Moraes. A ação dos aliados fora decidida um mês antes, em uma reunião com todos os comandantes também em Passo de Futa para analisar os insucessos das investidas no eixo Florença-Bologna. A intenção era tomar a região até dezembro, antes da chegada do inverno.

Todo respeito é devido a Mascarenhas de Moraes, pelas dificuldades que enfrentou em vários momentos da Campanha da Itália. No entanto, a divisão brasileira já chegara ao setor de Monte Castello três semanas antes que os primeiros ataques fossem realizados. Uma vez empenhados naquele setor, a praxe seria que os comandantes de batalhões brasileiros executassem os reconhecimentos do terreno.

O V Exército americano prometera aos brasileiros a entrega de armas uma semana depois, o que acabou não acontecendo no prazo. Os soldados da FEB não foram suficientemente treinados com os novos equipamentos, o que prejudicou as investidas. “A despeito de todas as providências tomadas, foi o armamento entregue com muito atraso, acarretando sérios prejuízos para a instrução dos 2º e 3º Escalões da FEB, cujas unidades, mal-instruídas e mal adaptadas, eram jogadas atropeladamente para a frente de combate, face a um inimigo que nos dominava por toda a parte, pela vista e pelo fogo”, narrou Mascarenhas de Moraes no relatório.

Mascarenhas, como de costume, está sendo honesto ao apontar as falhas organizacionais. De fato, houve atraso no fornecimento de armamentos e alguns batalhões brasileiros partiram para o front sem o devido preparo que os familiarizasse com o material – um dos batalhões do Regimento Sampaio nem chegou a disparar com os Browning Automatic Rifles antes de entrar em linha. Mas novamente, as deficiências apontadas por Mascarenhas são produto dos problemas que a tropa da FEB trouxe consigo do Brasil, antes que responsabilidade do IV Corpo e V Exército.

Ofensiva ampliada
Ao contrário do que esperava Mascarenhas de Moraes, porém, o IV Corpo do Exército americano aumentou a área de atuação da FEB. A ordem de ataque não era mais apenas Monte Castelo, mas também Belvedere e Monte Della Torraccia. “Para o comando brasileiro e sua tropa, a situação era bastante crítica em face da obstinação dos comandos americanos em retomar a ofensiva antes do rigor do inverno, que se aproximava”, descreve o general. Segundo o relatório da FEB, os pracinhas amarguravam uma situação moral e material desoladora. Enquanto parte dos soldados americanos descansava, os militares do Brasil estavam há 80 dias em contato direto com o inimigo.

Aqui temos um erro factual: o IV Corpo limitou a área de atuação da 1.a Divisão de Infantaria Expedicionária. Torracia e Belvedere ficaram sob a responsabilidade americana. Ah, e então quer dizer que os soldados americanos eram uns folgados que descansavam enquanto os brasileiros lutavam? Vai, ver, foi por isso que os EUA perderam a Segunda Guerra…

A investida de 12 de dezembro foi a mais infrutífera. Chovia intensamente às 6h30, horário marcado para o começo dos combates. A falta de visibilidade atrapalhava qualquer avanço e não permitia a ajuda da Força Aérea. Meia hora antes, tiros americanos em um setor vizinho acabaram com o sigilo da missão. Além disso, uma ordem mal-interpretada por um escalão de apoio desorganizou os procedimentos traçados na noite anterior. “O ataque perdeu por completo a impulsão e foi dado por encerrado às 15h, sem alcançar os objetivos e com sensíveis perdas, cerca de 140 baixas, entre mortos e feridos”, diz o relatório. Apenas 4 mil dos 12 mil tiros programados foram disparados.

De novo é tudo culpa dos americanos…

No relatório de Mascarenhas de Moraes, dois desabafos mostram o estado de espírito dos brasileiros naquele dia: “Foi certamente uma jornada infeliz, onde até os elementos conspiraram contra nós. A experiência na guerra é sempre uma fonte de ensinamentos preciosos. Este combate de 12 de dezembro, certamente o mais espetacular e esquisito insucesso sofrido por nós na Itália, foi prenhe de ensinamentos”. O fracasso também atingiu a tropa, que já estava cansada e sem proteção contra o frio que a cada dia se tornava mais rigoroso. O comandante sentiu, por diversas vezes, a iminência de ver sua divisão completamente destruída, como aconteceu com os portugueses na 1ª Guerra.

Recomposição de forças
Foi justamente devido àquela reunião da noite de 12 de dezembro que a situação dos brasileiros começava a reverter. No ofício enviado ao general Mark Clark, comandante do V Exército, Mascarenhas de Moraes reclamou ao militar dos Estados Unidos da precipitação com que a FEB estava sendo usada. Além disso, pediu 10 dias para reajustar as tropas, além da redução da área de atuação da FEB. Clark, a quem os brasileiros eram subordinados, atendeu os pedidos do chefe da FEB.

No final de dezembro começa a nevar forte na região. Apesar da previsão de reconhecimentos agressivos por parte do inimigo, não houve qualquer ofensiva. A idéia era manter as posições atuais. Até fevereiro de 1945, poucos combates foram realizados pelos brasileiros e, mesmo assim, vários alemães foram aprisionados. O inimigo, entretanto, continuava a atacar. Porém, havia uma determinação para economizar munição, principalmente de canhões e morteiros.

O menor número de prisioneiros foi capturado durante a fase da “Defensiva de Inverno.” Fico cada vez mais curioso para ver o tal relatório de onde esses dados foram tirados. O próprio Mascarenhas cita que em janeiro a D.I.E. só fez 25 prisioneiros.

Em 8 de fevereiro, em uma reunião entre os comandantes, são montados os novos planos para outra ofensiva sobre Monte Castelo. Ao contrário do ataque de 12 de dezembro, desta vez as tropas brasileiras atuaram em conjunto com uma divisão de montanha americana. A missão era atacar em direção a Belvedere e Torraccia. A FEB deveria manter também a guarda de uma área conquistada de 18km, além de conquistar Monte Castelo.

A mais importante vitória dos pracinhas aconteceu em 21 de fevereiro. A batalha começou às 5h30m e, às 17h20m, os alemães já estavam praticamente dominados. O objetivo era o mesmo, a tomada de Monte Castelo. O inimigo também queria o local. Porém, os meios eram outros, como definiu o comandante da FEB: “Tropa descansada, eficiente e de maior efetivo, artilharia mais abundante, aviação mais poderosa e com tempo favorável”, analisa Mascarenhas de Moraes em seu relatório.

As razões da vitória não se esgotam aí. Em fevereiro, Mascarenhas podia contar com uma divisão composta por soldados mais experientes e que tinham passado por um intenso programa de treinamento preparado especialmente para os brasileiros pelo comando do IV Corpo. Além do mais, a 10.a Divisão de Montanha finalmente conseguiu realizar a operação conjunta de conquista do Belvedere que vinha sendo tentada desde dezembro de 1944.

Texto: história oral dos veteranos da FEB.

Posted in Memórias da FEB on outubro 13, 2008 by ccmaximus

http://library.uvic.ca/site/spcoll/Mil/VOHC_2008/CMaximiano.pdf 

Link para um texto em PDF apresentado na “Military and Oral History Conference”, Universidade de Victoria, fevereiro de 2008.

Springfield vs. M1 Garand na Força Expedicionária Brasileira

Posted in História da FEB on outubro 12, 2008 by ccmaximus

Quem prestou atenção nas fotografias da infantaria expedicionária deve ter notado a baixa incidência de fuzis M1 Garand na tropa. Durante a Segunda Guerra, o Springfield 1903 e derivantes já não eram o armamento principal da infantaria americana. No entanto, os soldados brasileiros acabaram recebendo o Springfield.

Mascarenhas de Moraes esperava que os três regimentos de sua divisão recebessem o Garand. No entanto, quando a primeira remessa de armamento chegou às mãos do 6.o Regimento de Infantaria, os brasileiros puderam constatar que apenas 5.000 exemplares do Springfield estavam contidos entre o material recebido. Em uma tentativa de contentar os brasileiros, 200 Garands foram cedidos à FEB para treinar a tropa em caráter limitado. Supostamente, a Peninsular Base Section não contava com quantidades do M1 suficientes para equipar os brasileiros. A imagem abaixo mostra exemplares do Springfield nas mãos de soldados americanos em algum lugar do noroeste da Europa. Uma vez que o Springfield continuou sendo usado por unidades americanas que não fossem de infantaria, não é possível utilizar a imagem aqui postada como exemplo de que nem todas as tropas de infantaria americana estivessem armadas com o M1 Garand – já que unidades de artilharia e apoio continuaram utilizando o Springfield até 1945 – e a arma à qual os soldados da foto pertencem não está clara.

Apesar do Springfield ter sido declarado obsoleto em 1947, a arma ainda viu uso limitado durante a Guerra da Coréia.