O fim de mais um museu no Brasil. E quem não esperava por isso?

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Se fosse para discutir a qualidade deste museu em seus tempos áureos, eu não o pensaria como um dos melhores museus da FEB existentes, eu o situaria como um dos dez melhores museus do Brasil em termos absolutos. Em parâmetros de museus dedicados a unidades específicas, era sem dúvida um dos melhores e mais bem apresentados do mundo. O museu era uma exceção absurda, um ponto de terra firme no atoleiro intelectual chamado Brasil. Era questão de tempo até que fosse tragado.

Nem dá para explicar a decadência que o afetou nos dez últimos anos para os atuais responsáveis na esfera governamental, pois, para entender isso, eles teriam que conhecer a história do Brasil e da FEB, teriam que entender a qualidade dos artefatos militares lá expostos, teriam que entender a importância da História Militar para a formação de um país, teriam que possuir o bom gosto e capacidade de apreciação estética para desfrutar do seu maravilhoso acervo e exposição, teriam que ter a sensibilidade, acima de tudo, para ver naquele museu o fruto do empenho individual, do idealismo pessoal. E essas não são qualidades dos nossos representantes em nenhum dos lugares existentes para trabalhar em prol da sociedade. Nenhum. E, se você não tem essas qualidades, você não as reconhece quando as encontra. Estamos falando de gente que viaja para a Europa e EUA na base da verba pública, passa batido pelos museus e vai se enfiar em outlets. Capiaus que visitam o MASP e acham que viram um museu de verdade.

O acervo dispunha de uma enormidade de objetos de luminares da Divisão de Infantaria Expedicionária que fariam a inveja de qualquer grande museu militar. Infelizmente, creio que o que resta é guardar na cabeça a lembrança deste e de outros centros de memória. O abandono de um museu desse quilate é relacionado a um problema que não tem solução, que é o problema educacional e cultural brasileiro. É uma guerra que já perdemos. O que estamos testemunhando com esse processo é só mais uma prova da nossa insuperável habilidade em destruir o que existe de melhor no que resta da cultura neste país.

Há raríssimas e altamente honrosas exceções que ainda resistem heroicamente, como o museu de BH, mantido na base de trabalho voluntário. É coisa feita por gente que dá seu preciosíssimo tempo, de forma idealista, para tentar garantir a memória que a FEB merece no âmbito público. O Brasil não é, nem nunca será, um país de museus, especialmente museus integrados ao sistema educacional – outra coisa que não existe decentemente por aqui, e que ao que tudo indica só irá piorar.

Meu conselho: desistam dessas empreitadas quixotescas de querer salvar museus onde ninguém dá bola para eles, e lutem com as armas que temos hoje, que são a facilidade de publicação e a divulgação da Internet. Vocês irão ao menos despertar o interesse de meia dúzia de gatos pingados que ainda não foram contaminados pela apatia cultural dos trópicos. Ninguém que supostamente deveria nos representar neste arremedo de democracia está interessado em celebrar a memória daqueles que justamente lutaram pela democracia. Isso não dá voto e não dá promoção nas tão decantadas “carreiras de Estado”. Dêem-se por felizes que cronologicamente a FEB é um episódio próximo e que nossa geração ainda conseguiu registrar, estudar e refletir sobre este episódio. O mesmo não aconteceu com outros episódios igualmente importantes para nosso país, como a Guerra do Paraguai. Da mesma maneira que os veteranos da FEB formaram suas associações, os veteranos do Exército Imperial também as tinham, com museus, bibliotecas e espaços de convívio. Nenhuma sobrou. Nenhum desses acervos resistiu à indigência cultural brasileira.

Insistir nesta questão é como dar brilho nas escotilhas do Titanic. Se vocês gostam de museus de guerra, Londres e Paris tem alguns que são ótimos.

4 Respostas to “O fim de mais um museu no Brasil. E quem não esperava por isso?”

  1. Eu sei que esse foi um desabafo, com um toque de ironia e sarcasmo, mas se não forem essas empreitadas quixotescas, não teríamos mais museus! Que os abnegados que lutam pela cultura desse país não esmoreçam!

  2. ccmaximus Says:

    Não é desabafo. Eu realmente penso que atingimos o ponto mais desprezível e baixo de destruição da cultura, do qual não há retorno.

  3. Um país onde Ministro da Educação pergunta o que um museu tem a ver com Cultura não sai grande coisa.

  4. cicero sousa silva Says:

    Comecei recentemente a colecionar miniaturas, e dentre estas objetos da 2. Guerra, estou aprendendo e me interessando muito sobre tudo o que houve, principalmente da participação brasileira e sua importância. Quero apresentar minhas honras, agradecimento como brasileiro e dizer que tenho MUITO ORGULHO DE TODOS da FEB, e agradecer cada um de vocês. Aos que estão vivos e aos espíritos daqueles que se foram, aqui no Brasil ou lá na ocasião das batalhas. Deus com certeza é brasileiro e tem orgulho de todos vocês. Muito obrigado. Cícero de Sousa (a)

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