Regulamentando a profissão de historiador.

Regulamentação da profissão de historiador? Pra quê? Pra ser OBRIGADO a dar contribuição para sindicatos e sustentar picaretas, que não prestam contas sobre os valores recebidos? E aí, com a regulamentação, qual problema se resolve? Haverá demanda imediata para os trabalhos de historiadores? O que adianta regulamentar a profissão com base no argumento de que historiadores são necessários em museus, se o Brasil mal tem museus, centros de documentação e centros culturais? E, além de tudo, não se enganem: fazer faculdade de história pode até ajudar, mas não transforma ninguém automaticamente em historiador, assim como o diploma de letras não transforma o formando em escritor. Alega-se também que historiadores são necessários em filmes de cunho histórico. Pois bem. Já se fazem poucos filmes no Brasil – o que dependendo do ponto de vista, pode ser considerado algo bom (eu, afinal, não gosto da ideia de ter que sustentar o delírio artístico de milionário filho de dono de banco com verba pública).

O projeto pretende estabelecer que a prática da “profissão de historiador” seja privativa daqueles que têm algum tipo de diploma acadêmico na área (desde graduação até doutorado). Parte da idéia de que “num mundo onde a qualidade e a excelência de bens e serviços vêm se sofisticando cada vez mais, os historiadores devem ter sua profissão regulamentada, pois seu trabalho não mais comporta amadores ou aventureiros de primeira viagem”, segundo o projeto de lei do deputado Paulo Paim. A partir disso, sustenta-se que a presença de pessoal diplomado em história seja exigida em produções de filmes, documentários, propagandas e diversas outras produções. Obviamente, em alguns casos, um historiador com habilidades específicas pode ajudar. Suponham, por exemplo, um documentário sobre a malha férrea no Estado de São Paulo, devidamente assistido por um especialista. Acontece que algumas das pessoas que mais conhecem tal assunto no Brasil não têm nenhum tipo de diploma. Há portanto alguns temas históricos em que o historiador pode ser um amador no assunto, e que um “leigo” pode ser o especialista. Historiadores, em suma, não são como médicos ou advogados. Há bem menos gente nesta sociedade apta a julgar a qualidade de um trabalho de pesquisa histórica do que o resultado final do trabalho de um médico ou advogado, para os quais os parâmetros de sucesso e fracasso são quase auto-evidentes. O argumento da “qualidade de bens e serviços” parece ser simplesmente uma desculpa que tenta arraigar simpatia entre os potenciais contratantes de um historiador do que propriamente preocupação com excelência. É na verdade um disparate, dada a falta de qualidade da escola pública, que um político se preocupe com a qualidade dos serviços das empresas privadas. Olhem primeiro para a própria barriga, ineptos e incompetentes!

E a pergunta: as empresas envolvidas com algum tipo de trato com material histórico serão obrigadas a contratar um “especialista”, ou a possibilidade lhes é simplesmente facultada? Um diretor teatral terá liberdade artística de representar o passado como achar esteticamente adequado, ou precisará seguir as regras ditadas pelo seu historiador de plantão? É demais pensar nesta possibilidade em um país onde os donos de cinema são obrigados a exibir produções nacionais de baixíssima qualidade?

2 Respostas to “Regulamentando a profissão de historiador.”

  1. E mais! Sociólogos, cientistas políticos e antropólogos que têm formação sólida em história não vão poder lecionar essa cadeira. Tirar esse tipo de profissional das salas de aula limita visões e acaba por retirar o pluralismo da história, que ao meu ver, é o próprio sinônimo do assunto.
    O mercado é capaz de separar o joio do trigo. Um bom, experiente, culto e informado teólogo ou filósofo é melhor professor de história do que um graduado medíocre – cada escola contrata o que achar melhor para seus alunos.

  2. Linda crítica… Contudo deve-se saber que para museus museólogos, e não historiadores! Para história, seus profissionais. Já fui roubado por advogado, já tomei remédio errado! E um idiota dizendo que historiador não é necessário… Desconhecem claramente a profissão e algumas outras… Mas são excelentes em pecado capital: A INVEJA!

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