Uma visita ao Invalides

Um amigo visitou o Invalides. Ele me escreve:

“Fui aos Invalides para visitar a coleção das maquetes de Vauban.

Eh uma sala imensa, no quarto andar, com reproduções de terrenos com
3-5 metros de lado, e as maquetes em cima. Sobe-se uma pequena escada
para chegar. Da uma sensaçao de importancia e solenidade. A iluminação
é precaria, para proteção. A maioria das maquetes é de fortificações
do litoral; inclusive tem uma do Monte Saint Michel, perfeita, como
todas elas. Estão dentro de cubos de vidro e pode-se dar a volta para
enxergar todos os angulos. Se me lembro bem, tem Saint Malo, ou Saint
Lo. Pensei: “Que interessante! Fizeram as maquetes dos castelos.” Dai
a verdade assombrosa me atropelou: as maquetes foram feitas ANTES dos
castelos, no século XVII, e ficavam na sala de guerra do Rei, em
Versalhes. Eram usadas para estudo e decisões de estratégia, além
obviamente de orientar a construção. São também o antecedente dos
jogos de guerra por computador e dos kriegspiel dos alemães – ou seja,
um mapa em alto relevo da situação de guerra. Isso em 1600!!! As
maquetes têm 300 anos!!!

Dai me sentei na cadeira do guarda, que ficou me olhando, para esperar
a livraria abrir. Inclusive chegou um outro guarda e ficou me olhando
também. Eu olhei para eles e ficou por isso mesmo. Eis que vem um
tropel pela escada e surgem 40 crianças de todas as cores e raças;
inclusive aquela gente loira e de olhos azuis que inventou a crise, no
dizer categorico dos grandes burros, entre eles o quadrupede que nos
dirige; todas ai pelos 10 anos no maximo, com três professores. Atras
da livraria tem outra exposição, com maquetes de ataques a
fortificações. A professora, uma garotinha de menos de trinta anos,
disse, repito, disse, não gritou, “silence, s’il vous plait”. A isso
se seguiu um silêncio verdadeiramente civilizado. Alias, a civilização
é silenciosa; os barbaros e selvagens gostam de gritar. E aquela
menininha começou a explicar a visita que as crianças, prestando
grande atenção, iriam fazer. Isso na porta da livraria; todo mundo
entrou em seguida e so se ouvia a voz da professora. E a segunda
verdade assombrosa me derrubou: “daqui a 30 minutos, essas crianças de
10 anos vao saber o que eu levei 62 anos para descobrir”!!! E essa
professora sabe de tudo!!! Sera que ela sabe que esta transmitindo 2
000 anos de civilização??? Como é que ninguém me contou isso antes?

E a terceira verdade assombrosa me detonou: nunca, repito, NUNCA,
vamos chegar a isso. Nao temos professores, nem museus, nem escola,
nem um sistema de transporte como o que leva as crianças com
segurança, nem nada, para fazer coisa igual. So temos mesmo o Tião que
ensina aritmética (que ele diz que é matematica e todos acreditam, mas
nao faz diferença, porque ninguém sabe mesmo de nada) debaixo da
mangueira, oh, que original, e temos também o Paulo Freire para pregar
a educação libertadora baseada nos “saberes” da realidade imediata.
Ah, sim, a realidade de fazer pau a pique e viola de coxo. Ah, sim,
temos também a revista Veja e a rede Globo com 400 projetos para
refazer o Brasil, nenhum deles operacional.

Que pena. Visitem Paris de vez em quando. E uma cidade muito bonita de
se olhar.”

Uma resposta to “Uma visita ao Invalides”

  1. Cesar, este texto me levou de volta ao Museu, pois estive lá em novembro passado, mas o que mais chama a atenção são as verdades comentadas, infelizmente….me recordou mais a nossa falta de educação do que os canhões das enormes salas do museu.
    Parabéns pelo texto.

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