A distância entre o jornalismo americano e brasileiro é a distância no trato aos veteranos nos dois países.

O começo desta história, junto com o trecho da Folha de São Paulo que motiva esta postagem estão aqui:

http://olapaazul.com/

O autor do blog do Lapa Azul já tratou do assunto em ótima medida. Como eu conheci Gratagliano e também me incomodei bastante com a forma que o jornal noticiou seu falecimento, acho adequado dizer o que penso a respeito. Já se passaram quase quatro anos da publicação do obituário. A diferença é que naquela época eu não sabia que o Willian Vieira tinha um blog. http://24tz.wordpress.com/ – visitem, é sen-sa-cio-nal! Junto a um companheiro, Willian também dá alegres tuítadas: http://twitter.com/#!/24tz

Obtive a foto do jornalista responsável pelo obituário em seu blog, longo relato da variedade “viagem de descoberta interior”, que entre outras proezas como mudança de sexo, elenca uma enfadonha série de manifestações de ego-trip, enquanto o par saltita pela Ásia: os viajantes de países do Hemisfério Norte são “mochileiros brancos” tolos em busca de drogas. Ele, claro, é o peregrino sensível e esclarecido. Aparentemente, Willian (assim, com “n” no final mesmo) é do tipo que precisa ir à Índia em busca de “iluminação”. Mesmo que isso signifique acreditar que saudar cadáveres em decomposição boiando em rios equivale a uma manifestação espiritual apurada. Esse papo de “sabedoria oriental” não cola no blog deste autor, conservador, reacionário e caretão (como diria o Ultraje a Rigor). E essa conversa me é especialmente irritante quando ela provém de quem se identifica com os pobres de alguma favela no sudeste asiático, mas despreza os pobres com sotaque italianado dos cortiços do Brás.

Willian pôde escolher cuidadosamente as imagens postadas em seu blog. Logicamente, ele teve o cuidado de selecionar poses bacanas.

Vejamos uma das fotos:

E vejamos aqui uma outra cena que a mesma imagem acima suscita:

O soldado brasileiro fotografado na neve, tal como família de Gratagliano (e o que dizer do próprio) não tiveram a mesma prerrogativa: escolher como iriam aparecer. O expedicionário na neve segura o ski de maneira canhestra, de equilíbrio titubeante, sem muito tempo para pose para o fotógrafo, sem poder se arrumar, sem poder ter feito cara de gostoso para os parentes no Brasil. Sem poder endireitar a roupa amarfanhada. Obviamente, ele tinha preocupações mais imediatas naquele momento.

Willian trata a si mesmo como uma espécie de estrela do jornalismo. No tempo de Gratagliano, a palavra usada para descrever esse comportamento era “cabotinismo”. Mas o jornalista era implacável com as pessoas humildes que retratava em seus obituários – uma covardia que chegava ao ponto de utilizar um grande jornal para ridicularizar o tipo de gente que jamais teria acesso à expressão na grande imprensa, e exatamente por isso incapaz de responder ao aviltamento. Escrevendo para agradar sua meia dúzia de chefes alegres e descolados, ele mesmo deitou por terra sua pretensão de sensibilidade literária, ao escarnecer um octogenário agonizante, que ele jamais conheceu pessoalmente. Se um dia deseja ser um bom escritor, talvez devesse ler certos livros de Rubem Braga e Boris Schnaiderman.

E tudo isso sob o pretexto de um jornalismo ágil e moderno: o veterano brasileiro foi retratado como uma figura rústica e carcomida, já além da hora de passar para uma melhor. Para quem não o conheceu, o obituário pode ter soado como desrespeitoso, no mínimo. Para quem o conheceu, é gritante a contrafação.

De onde teria surgido o ímpeto de criar esses obituários? A resposta é fácil: o jornalismo brasileiro, estagnado, prima pela falta de criatividade e capacidade de inovação. A única solução é buscar “exemplos” do jornalismo estrangeiro, em especial do anglo-saxônico – nessas horas em que o dinheiro da venda do jornal é levado a sério, a Índia não pode servir de referência, não é mesmo? Desprezar o Ocidente só vale para quando convém.

Essa necessidade de imitar o jornalismo americano é admitida pelo próprio idealizador da “modernização” do jornal, Matinas Suzuki Jr., em uma entrevista para o Observatório da Imprensa:

“A Folha começou a fazer essa seção, é um pequeno texto, uma pequena história, muito bem escolhida e muito bem escrita por um jovem jornalista chamado Willian Vieira que vem na tradição do melhor obituário moderno da imprensa anglo-saxã, que é, eu acho, o grande obituário que a imprensa tem hoje.”

A íntegra da entrevista está aqui, sob o título “Obituário com estilo”:

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/obituario-com-estilo

Como é típico dos arrivistas desesperados por carreira, citações mútuas e puxação de saco do chefe Kawasaki também valem. Willian escreveu:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u367135.shtml

“O obituário talvez seja o único lugar da imprensa diária que chegou perto do jornalismo literário sistematicamente”, diz Matinas Suzuki Jr., coordenador da coleção “Jornalismo Literário”.

Acontece que copiar algo bem feito não é assim tão fácil. O fato de um jornal se inspirar no New York Times não significa que automaticamente irá alcançar idêntica qualidade literária. Para tanto, são necessárias outras qualidades, como sensibilidade e talento. Willian “vem na tradição do melhor obituário moderno”, segundo Suzuki. Vocês já devem ter percebido que na minha opinião, nenhum dos jornalistas sabe do que está falando.

Mas epa, Suzuki deve entender mais de jornalismo do que eu, não? Talvez a prova dos nove se encontre nas páginas do próprio NYT – principal “fonte de inspiração” para a FSP.

Será que o NYT concordaria com essa avaliação? O jornal nova-iorquino, talvez, daria o mesmo tratamento a um veterano americano recém-falecido? O NYT é sabidamente um jornal que pode ser classificado como “liberal” no sentido americano, freqüentemente crítico aos republicanos, e em especial das ações militares dos EUA ao redor do mundo. Mas vejamos como o jornal anunciou a morte de um veterano americano da Segunda Guerra Mundial, há poucos dias:

http://www.nytimes.com/2011/06/10/us/10alison.html?_r=1&ref=obituaries

John R. Alison, Ace Fighter Pilot in World War II, Dies at 98
By DENNIS HEVESI
Published: June 9, 2011
John R. Alison, an ace fighter pilot in World War II who helped organize and lead a broad American air campaign that enabled British forces to bog down the Japanese in the jungles of Burma, died Monday at his home in Washington. He was 98.

His son David confirmed his death.
Mr. Alison, a retired Air Force Reserve major general, was a lieutenant colonel in what was then the Army Air Forces in late 1943 when Gen. Henry Arnold, commander of the Air Forces, assigned him and another lieutenant colonel to organize Operation Thursday, which is credited with having helped protect India from invasion by the Japanese. The other lieutenant colonel was Philip Cochran, the model for the character Flip Corkin in the popular comic strip “Terry and the Pirates.”
The two young officers came to General Arnold’s attention for their exploits before and in the early years of the war. Colonel Cochran, who died in 1979, had been a successful fighter group commander in North Africa.
Colonel Alison, who would go on to qualify as an ace by taking down seven enemy planes, was the pilot who demonstrated the capability of the Curtiss P-40 Warhawkto the Nationalist Chinese leader Chiang Kai-shek, when he came to the United States in 1940 to buy planes for the fabled American volunteer group the Flying Tigers.
In his book “Way of a Fighter” (1949), the commander of the Flying Tigers, Gen. Claire Chennault, recalled that “Alison got more out of that P-40 in his five-minute demonstration than anybody I ever saw before or after.” When he landed, General Chennault said, members of the Chinese delegation “pointed at the P-40 and smiled, ‘We need 100 of these.’ ‘No,’ I said, pointing to Alison, ‘you need 100 of these.’ ”
General Arnold decided he needed the two lieutenant colonels because the British, under Maj. Gen. Orde C. Wingate, had faced calamitous conditions in 1943 when they first tried to pin down Japanese occupation forces in Burma. Without air protection, the British had slogged hundreds of miles into the jungle and been forced to leave their wounded to die on the trails.
At General Wingate’s behest, Prime Minister Winston Churchill asked President Franklin D. Roosevelt to provide American air support for another incursion. The two officers were authorized by General Arnold to acquire as many aircraft and men as needed to insert British forces behind Japanese lines, to set up airfields to supply them and to evacuate the wounded.
“They wrote the playbook to do this on the fly, because nobody had ever done this before,” said Douglas Birkey, director of government relations for the Air Force Association, which promotes education about air power. “Cochran and Alison are considered the grandfathers of the U.S. Air Force Special Operations Command” — its elite combat unit.
Several hundred men and 348 aircraft — including C-47 transports, Waco CG-4A gliders, P-51 fighters and B-25 bombers — were assigned to the mission.
On March 5, 1944, 80 gliders were towed by the transports, two attached to each transport, over 8,500-foot mountains. They delivered 539 British soldiers and 66,000 pounds of equipment to a gully-pitted glade 165 miles inside Burma, known as Broadway. The operation ran for six days and nights, bringing in 9,052 troops, 1,282 pack mules and half a million pounds of supplies.
“In terms of guarding India, it was tremendously successful because the Japanese were distracted by having to deal with the guerrilla incursion,” Mr. Birkey said. “This really did mark the last point at which the Japanese could have expanded their empire in Asia.”
Colonel Alison led the mission on its first day, landing a glider bearing 15 soldiers in the glade.
Among his many decorations are the Distinguished Service Cross and the Distinguished Service Order presented by King George VI of Britain.
John Richardson Alison was born in Micanopy, Fla., on Nov. 21, 1912, to Grover and Edelweiss Alison. His sights were set after a barnstormer took him on a flight as a teenager, his son David said.
Besides David, Mr. Alison is survived by his wife of 60 years, the former Kathleen Arcidiano; another son, John; and three grandchildren.
Soon after graduating from the University of Florida with a degree in engineering in 1936, Mr. Alison enlisted in the Army. He was sent to London in the spring of 1941 as a technical adviser to the Royal Air Force. But he wanted to be in combat, and in July 1942 he was assigned as deputy commander of the 75th Fighter Squadron in China.
Two years after the war, when President Harry S. Truman appointed him assistant secretary of commerce for aeronautics, The New York Times wrote, “As Major Alison, according to dispatches in July 1942, he scored one of the most spectacular individual performances by the Air Forces in China by shooting down two of three Japanese bombers out of a nine-plane squadron that was raiding Hengyang in Hunan Province.”

Os obituários da Folha, portanto, não têm NADA a ver com os originais do NYT em termos de estilo, e não passam de uma emulação simiesca do jornal americano. São meras cópias mal digeridas de uma qualidade jornalística que o Brasil não alcança nem em sonho.

A contradição escancarada é que o jornalismo americano é feito por profissionais cultos, bem formados e inteligentes, que compreendem que o respeito ao veterano é inegociável, independente de uma postura contrária às decisões governamentais. É aceitável que um jornal seja contra a guerra no Iraque e apoie os combatentes daquela guerra. O problema mais grave é que no caso de um veterano como Gratagliano, a luta foi contra o Nazismo, regime em que gente como Willian Vieira seria forçada a lamber botas de oficiais da Gestapo, antes de ganhar uma bala na nuca.

Conclusão óbvia: o jornalismo brasileiro “misturou os sinais”. Na compreensão tosca, indigente e tacanha que possuem de “jornalismo ágil e moderno”, os mazombos da Folha não hesitaram em ridicularizar a figura do veterano de guerra – algo que associam a um ideário bolorento. Essa bisonha compreensão de “moderno” personificada no texto do jornal é orientada pela oposição àquilo que o veterano representa: um homem que, armado, vestiu uma farda e lutou por seu país. A partir de uma visão bronca e chinfrim que mantêm da história, Willian e Sukiaky reduziram a memória de Gratagliano a um arremedo caricato de sua real figura – e isso porque tentavam retratá-lo com verossimilhança. A forma que o jornal encontrou para contar sua história foi o escárnio. Típico de trogloditas travestidos de intelectuais. E é assim que entrarão para a história.

2 Respostas para “A distância entre o jornalismo americano e brasileiro é a distância no trato aos veteranos nos dois países.”

  1. O post desmascara com maestria a pretensão da Folha de São Paulo — e de seu articulista Wllian Vieira — de apresentar um jornalismo “moderno” e obituários “com estilo”.

    A propalada “inspiração” no NYT é uma farsa, como o post mostra cabalmente. Os obituários da Folha são uma canhestra, mal-feita e irresponsável cópia do estilo literário do NYT. No original americano, o jornalista pesquisa a fundo a história de vida do falecido, explicitando a sua contribuição para a sociedade. No congênere brasileiro, Wllian Vieira se propõe a detalhar os extertores da vida do pracinha Gratagliano, tal qual um legítimo pasquim.

    A foto de Wllian Vieira como esquiador de araque , querendo fazer cara de “gostoso”, dá uma boa idéia do seu estilo literário: falso e exibicionista de um talento que só ele imagina possuir.

    A leitura do seu Blog de viagens na Ásia (nauseante, diga-se de passagem), por entre prostíbulos de homossexuais, revela um pouco mais da sua estrutura mental e preferências. Um dos seus destaques é um médico que faz operações de “mudança de sexo” na Tailândia, utilizando o aparelho excretor como órgão sexual.

    Wllian Vieira parece ser uma legítima cria do individualismo “Politicamente Correto” que infesta a sociedade, de um individualismo que coloca os “desejos” ser humano acima do bem e do mal, acima de qualquer limite ético ou moral. No universo de Wllian Vieira, um médico que transforma seres humanos em bizarras criaturas estéreis é chamado de “cirurgião de redesignação sexual”.

    Sabe-se que de um articulista da “Carta Capital” não é lá de se esperar grande coisa, mas o que se torna hilário é o pretenso sonho do jornalista (?) brasileiro em imitar a qualidade dos seus textos aos do jornalismo anglo-saxão. Talvez devesse começar corrigindo o próprio nome de Willian (com “n”) para o verdadeiro William (com “m”).

    Se ficar pela Ásia não nos fará falta.

  2. Ele deve ser daqueles que escreve “estadunidense” mas na hora H copia os americanos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: