Barbudos, Sujos e Fatigados e a matéria da Folha de São Paulo.

O quanto um repórter lê antes de escrever uma matéria sobre história ou ciência? Estaria o articulista ciente das divergências teóricas e metodológicas existentes entre os pesquisadores que ele consultou e os que deixou de consultar? Se o assunto for história, o jornalista precisa ter conhecimento das problemáticas que envolvem um determinado tema, antes de se ocupar em escrever sobre ele?

Em uma situação ideal, as perguntas acima seriam todas pertinentes. Mas elas não se aplicam à realidade do jornalismo sobre história no Brasil. O que os pesquisadores que incorrem no risco de terem seus trabalhos “analisados” por jornalistas podem esperar, no máximo, é que os profissionais de imprensa ao menos entendam o que está escrito em um livro, tese ou artigo científico. Manter a expectativa de que o jornalista tenha conhecimento das demais publicações que versam sobre o tema tratado pelo pesquisador já é querer demais. Sim, o que quero dizer é que, com sorte, o autor de um livro vai ter sua obra resenhada por alguém que compreendeu minimamente a proposta do trabalho – e para isto, é necessário algo raro neste país, chamado “compreensão de texto”.

Desta maneira, uma matéria inconseqüente da Folha de São Paulo apresenta o “Barbudos, Sujos e Fatigados” como mais uma sandice objetivada a denunciar os soldados brasileiros como trapalhões, jogando vinte anos de pesquisa no esgoto. A matéria lança por terra a credibilidade deste autor, reforçando certa opinião sobre a qualidade dos soldados brasileiros que o livro chega a desmentir, por meio de documentação.

E não estou preocupado com os comentários da vala comum de ignorância da versão online do jornal. Para quem não sabe, nem tudo correu bem na organização da FEB. Parte dos problemas originou-se da incompetência de oficiais. Pois é, alguns generais brasileiros foram bons, outros nem tanto. E este autor não deixa uma crítica de fora de seus trabalhos de pesquisa, se tiver razões suficientes para crer que ela está bem fundamentada. A questão da inadequação da matéria no jornal nem diz respeito às menções sobre as deficiências de treinamento da FEB, as quais Mascarenhas de Moraes foi o primeiro a reconhecer, já em 1947.

Mas é frustrante perceber que nem mesmo quem supostamente pertence à classe letrada no Brasil consegue entender um texto relativamente simples com facilidade – imagine se chegam ao ponto de transitar tranqüilamente entre as discussões historiográficas avançadas.

Os problemas não se resumem ao despreparo e inépcia da garotada que sai da faculdade e é incumbida de escrever para milhões de pessoas. Há casos de mau jornalismo, puro e simples.

Já li em uma revista de história da editora Abril que “Júlio César teria lutado contra Aníbal”. Se isso não soa como prova de cabal ignorância histórica para você, eis o absurdo: a bagatela de duzentos anos separa as vidas dos dois. E passou batido. E na edição seguinte, o mesmo jornalista já estava escrevendo besteira sobre outro assunto.

Esses caras não só não entendem o que lêem. Também não entendem o que escrevem.

2 Respostas para “Barbudos, Sujos e Fatigados e a matéria da Folha de São Paulo.”

  1. Adquiri o livro e e fiquei ultrajado como foi apresentado o livro nessa reportagem. O autor da matéria não deve nem ter lido o mesmo!

  2. Obrigado Robson, sei que quem conhece o livro sacou na hora que havia algo errado.

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