Quais os critérios do MinC?

Como alguém que vive de atividades que remotamente podem ser ligadas à esfera do “cultural”, não deixo de me espantar com o hábito de artistas brasileiros acreditarem que o Estado deve ser o grande fiador do seu trabalho. Obviamente essa impressão foi aumentada com o fato de Maria Bethânia, que no mínimo vive confortavelmente com a renda de shows e venda de CDs, arrogar-se a necessidade de dinheiro público para um projeto pessoal. A discussão ficou divertida com menções a uma suposta “elite branca paulista”, especialmente para este autor que descende de humildes imigrantes italianos que fugiram da fome e precisaram disputar restos de comida com os ratos nos porões do navio que os trouxe ao porto de Santos.

Absorto na leitura de relatórios datados de fevereiro de 1945 já há uns bons dias, confesso que estava alheio a esse quiproquó, para o qual minha atenção foi despertada pelo meu amigo Joaquim Ghirotti, também um carcamano.

Nos últimos dias li textos de blogs de uma variedade de tendências políticas discutindo com propriedade o acinte que consiste em financiar com dinheiro público uma série de declamações de poesia que seriam filmadas e postadas na Internet. Do total aprovado no projeto, 600 mil reais seriam destinados à própria cantora. Sem menção de pagamento dos direitos dos poetas, esses sim autores dos poemas. É uma quantidade de dinheiro que a maioria dos brasileiros sequer jamais vai ver.

Não sou totalmente desfavorável à idéia de que projetos culturais sejam financiados com dinheiro público. Mas o que eu gostaria de ver seria a aprovação de projetos de artistas e autores iniciantes, sem vínculos com as panelas da produção cultural. O mais incrível é que vários produtos financiados com dinheiro público nem chegam a ser oferecidos para venda aos potenciais interessados: são dados como presentes institucionais aos altos escalões das empresas e fundações que os financiam, em rapapés de lançamento secretos para os quais a plebe jamais é convidada. Suponho que os “refreshments” das festinhas também entrem no orçamento do “projeto”.

Posso me dar por feliz, pois já publiquei razoavelmente, sem jamais ter utilizado um centavo de dinheiro público. Sim, o IRMÃOS DE ARMAS tem um selo da Lei Rouanet, mas está disponível no site do MinC o total de dinheiro captado para o projeto: zero. Não foi preciso auxílio para a publicação do livro, pois seu orçamento era baixo. E de qualquer maneira, a renda do livro foi destinada à Associação dos Ex-Combatentes de São Paulo.

Por outro lado, conheço um bom punhado de autores brilhantes, responsáveis por pesquisas produzidas tanto na academia quanto fora dela, que têm seus trabalhos de história apanhando poeira por falta de editoras que se interessem – mas principalmente, por falta de conhecer os “canais” que possibilitem o tal apoio. E não há como negar: em quaisquer circunstâncias, os critérios de aprovação dos trabalhos a serem considerados aptos para receber dinheiro serão sempre nebulosos. Quem decide afinal qual obra tem mérito e merece ser levada adiante? Sob quais parâmetros?

Em condições ideais, o que deveria definir o ciclo de vida de uma obra é sua qualidade: livros, filmes e demais produtos sobreviveriam porque são bons e suscitam interesse. Quem deseja viver da autoria de livros precisa entender que essa pretensão demora anos para se concretizar, e que com freqüência isso demanda um grau de dedicação obsessivo e monástico, se é que algum dia você deseje pagar suas contas com o que recebe dos direitos autorais. A não ser que você tenha uma história tão boa quanto a da Bruna Surfistinha.

Longe do meu gosto musical, Maria Bethânia é de qualquer forma uma artista de primeiro time. Ela tem fãs suficientes que podem garantir a solidez de mercado de qualquer coisa que produza. Infelizmente, o mundo do financiamento dos projetos culturais continua sendo um mar de encouraçados onde de vez em quando se arriscam alguns caça-minazinhos.

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