“The War”, documentário de Ken Burns.

Demorou, mas consegui assistir ao documentário de Burns sobre a Segunda Guerra Mundial, para os americanos, “A” guerra, ou “the big one.” Burns teve sua excelente série de documentários sobre jazz lançada no Brasil, e não é remota a possibilidade que o filme sobre a guerra também seja comercializado em versão nacional.

É difícil entender os EUA sem conhecer bem o impacto que a participação na guerra teve no país. Em seus filmes, Burns trata de várias experiências formativas dos valores nacionais e identidade americanos: dirigiu, além dos trabalhos sobre jazz e a guerra, outros documentários abordando temas como a Guerra Civil Americana e o baseball.

A premissa do filme é bastante original: o expectador irá conhecer a experiência de guerra americana pela perspectiva de quatro pequenas cidades bem diferentes: Luverne, Minesotta; Sacramento, Califórnia; Mobile, Alabama e Waterbury, Connecticut. Uma cidade do sul, outra do meio-oeste, outra da costa oeste e uma da parte mais tradicional da costa leste dos EUA. Não há apenas depoimentos de veteranos que lutaram no além-mar, mas também de testemunhas que não estavam em idade militar na época da guerra, de esposas de combatentes, de familiares de mortos em combate, de civis americanos presos pelos japoneses, de nipo-americanos e negros discriminados em seu próprio país, de veteranos bastante conhecidos e dos mais anônimos que se pode imaginar.

Todos os relatos dos veteranos (e veteranas) mostrados no filme são dramáticos, mas há três que merecem destaque especial: Paul Fussell, Samuel Hynes e os trechos lidos do livro de E.B. Sledge.

Coincidentemente, os três seguiram carreiras acadêmicas depois da guerra: Fussell e Hynes como professores de literatura e Sledge como biólogo.

Por meio de seus livros, os três veteranos conseguiram transpor a brecha de entendimento da experiência de guerra, que era incompreensível para a parcela da sociedade americana que não deixou o continente para combater na Europa, África ou Ásia.

Em 1989, Fussell, que já havia se tornado célebre com “The Great War and Modern Memory”, publicou “Wartime: understanding and behavior in the Second World War.” Ao analisar a literatura, gíria, padrões de comportamento e valores da geração que lutou na guerra, 0 veterano comandante de pelotão de fuzileiros da 103a. Divisão de Infantaria conseguiu explicar que a guerra não exigiu somente sacrifícios físicos, mas também do bom senso, da inteligência, da tolerância e da verdade – mesmo que a causa tenha sido absolutamente justa, o lado vencedor precisou anular sua humanidade para vencer inimigos brutais.

Hynes, que foi piloto de caça do US Marine Corps, escreveu um brilhante livro sobre a autoridade dos veteranos de guerra como fonte para a compreensão da verdade do combate. É supreedente que um crítico literário como ele consiga superar as costumeiras categorias explicativas da sua área de conhecimento que consideram testemunhos pessoais como “efeito narrativo” ou “representação”. Para Hynes, há uma verdade intrínseca aos relatos de veteranos e ela pode ser encontrada na coerência existente nas percepções suscitadas pela memória.

E.B. Sledge faleceu em 2001, antes que o documentário de Burns fosse produzido. Tanto Fussell como Hynes citam-no em diversos trechos de seus livros. O texto de Sledge é o quintessencial relato do soldado de infantaria que procura expurgar seus demônios por meio da escrita. A edição mais recente tem uma boa introdução do historiador Victor Davis Hanson, adequada para os tempos sombrios de luta contra o fundamentalismo islâmico. Como muitos veteranos da Segunda Guerra, Sledge passou anos distanciado da família, e apesar de uma bem sucedida carreira acadêmica, permanecia atormentado por suas lembranças dos episódios vividos em Peleliu e Okinawa. Seu livro percorre todos os graus de sua experiência na barbárie, desde seus primeiros momentos em seu pelotão do USMC cheio de veteranos da batalha de Cape Gloucester que viviam em um mundo à parte, até sua descida ao inferno de carne putrefata e vermes da invasão do Japão.

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Uma resposta para ““The War”, documentário de Ken Burns.”

  1. muito bom

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