Tentando entender a Campanha da Itália.

É provável que desde que os primeiros momentos enfiados nos foxholes italianos os soldados aliados tenham pensado naquela campanha como alguma espécie de versão moderna e palpável do Inferno de Dante. Alguns brasileiros com certeza o fizeram. O jornalista britânico Eric Morris deu o título de “Círculos do Inferno” para seu livro-condenação dos erros conceituais que de início motivaram a campanha; Richard Lamb chamou o caso italiano de “uma história brutal.” Até hoje, entre veteranos e historiadores permanece um debate acirrado a respeito da utilidade de empenhar um grupo de exércitos que por dois anos se arrastou montanhas acima ao custo de baixas altíssimas. Basicamente a questão se divide em dois lados, os que advogam a eficácia da campanha que teria servido para prender grandes quantidades de tropa alemã na Itália e outros que julgam que desde seu advento a invasão do país foi um fiasco total. Além disso, aqueles que se encontram no segundo campo consideram que se os aliados conseguiram segurar um número de unidades alemãs na Itália, isso só ocorreu ao custo de um enorme esforço humano e material – que possivelmente teria sido melhor empregado em outros teatros de operações onde as ofensivas se desenvolviam de maneira mais favorável.

Entretanto, é comum que os historiadores percam de vista um dos fatores que conferia importância ao teatro de operações do Mediterrâneo: a planície do rio Pó supria os alemães com produtos agrários imprescindíveis para o Reich. Além disso, nos anos finais da guerra os alemães dependiam de diversas indústrias ligadas à produção de materiais bélicos existentes no norte da Itália, além de também aproveitarem a indústria têxtil local para a confecção de uniformes. Os veteranos da Campanha da Itália dificilmente se esquecem da abundância de recursos do norte italiano testemunhada depois que o 5.o e o 8.o Exércitos cruzaram o rio Pó. Depois de meses acostumados com a carência de alimentos que causou convulsão social na população que vivia abaixo dos Apeninos, a visão de um norte abalado pela guerra, porém nem remotamente tão sofrido quanto o centro-sul deu aos soldados aliados a impressão de terem adentrado um outro país. Pouco mais de 20 divisões alemãs guarneciam o norte da Itália, acrescidas de quatro divisões da República Social Italiana treinadas na Alemanha. Fazendo frente ao inimigo, um número similar de divisões aliadas permaneceu empenhado no último ano da guerra. É possível que a Campanha da Itália tivesse terminado mais cedo caso um número maior de unidades aliadas tivesse sido enviado ao país, mas a situação aproximada de equilíbrio de contingentes tornou a tarefa de vencer os alemães muito mais difícil. Mesmo a superioridade material aliada não foi totalmente suficiente para desalojar alemães e italianos de seus abrigos apeninos – o  que só ocorreu em abril de 1945, com mais uma custosa ofensiva em direção ao norte.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: