Spike Lee e a 92.a Divisão de Infantaria.

A Campanha da Itália nunca foi abordada de forma extensiva pela cinematografia. Com exceção de alguns clássicos de Rosselini, nem mesmo o cinema italiano enfocou o tema da guerra exaustivamente. No cinema americano, os tratamentos dados à guerra na Itália ou foram episódicos (como em “Agonia e Glória” de Sam Fuller), ou se notabilizaram por filmes tão ruins como “Anzio”, realizado no final da década de 60 em co-produção com estúdios italianos e que hoje não pode ser visto sem certo constrangimento – é o tipo de filme que faz o espectador sentir vergonha pelos atores. A ausência da campanha na península italiana das telas de cinema encontra um paralelo interessante na bibliografia disponível sobre a Segunda Guerra. Parece que tanto escritores como diretores de cinema esqueceram que a Itália foi palco de combates por quase dois anos. Tornou-se clichê chamar a campanha da Itália de “a guerra esquecida.”

Óbvio que o interesse de Spike Lee em fazer um filme ambientado na Itália não se deve exatamente ao intuito de explorar aquela campanha pouco lembrada. É que a única divisão de infantaria composta por negros que chegou a travar combate na Segunda Guerra foi enviada para a península italiana. O Exército Americano permaneceu segregado até 1948. A 92.a Divisão de Infantaria foi formada com praças e graduados negros, embora todos os oficais fossem brancos da patente de capitão para cima. Controvérsias circundam o desempenho dessa grande unidade em combate. É certo que o moral da divisão fosse baixo devido à segregação, mas mesmo assim houve inúmeros casos de bravura individual observados na tropa de soldados negros.

Mas a folha de combate da 92.a não é a preocupação de Spike Lee. O diretor andou aparecendo na imprensa devido às críticas feitas a Clint Eastwood, que segundo Lee “não inclui soldados negros em seus filmes sobre Iwo Jima.” De fato,  nenhum dos homens que hasteou a bandeira no Monte Suribachi era negro, e o segundo filme de Eastwood trata do Exército Japonês…

Mas enquanto a “discriminação positiva” não chega às telas, é bom lembrar que Eastwood preocupou-se em ser historicamente correto nesses aspectos, embora tenha tomado bastante liberdade com a maneira que retratou alguns dos personagens principais.

Eu não li o livro no qual Lee se baseou para a produção do filme, embora conheça razoavelmente bem a história da 92.a Divisão. Pelo fato de ser segregada, essa unidade impressionou bastante os soldados brasileiros que com ela tiveram contato na Itália, mas não pela eficácia de seu emprego em combate. De forma geral, os veteranos da FEB não guardaram boas impressões da 92.a, apesar das opiniões amplamente positivas referentes aos demais contatos com grandes unidades americanas. O que deixou marcas na memória dos brasileiros foi justamente o fato de os americanos brancos e negros não lutarem juntos nos mesmos pelotões. Boa parte dos soldados americanos brancos era favorável à integração, mas alguns comandantes ainda resistiam à extinção de unidades como a 92.a e à introdução de seus soldados nas divisões “normais” do Exército. As primeiras experiências de unidades integradas ocorreram ainda no ano de 1945, mas no Noroeste da Europa, após vários soldados negros (que naquele teatro de operações atuavam em tropas de serviços e logística) se oferecerem como voluntários para preencher os claros causados em combate. Pelotões de soldados negros e brancos foram criados e entraram em ação na Alemanha, exercendo suas funções de forma altamente satisfatória. Mas na Itália, teatro de operações onde a segregação persistiu, o desempenho das unidades segregadas continuou abaixo do rendimento médio das demais divisões de infantaria.

“Miracle at St. Anna” será lançado nos EUA no dia 26 de setembro. A data de lançamento no Brasil ainda não foi divulgada. Um trailer do filme pode ser visto aqui: http://movies.yahoo.com/movie/1809947151/trailer

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