Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira, de Leonercio Soares

 

 Não, apesar da primeira idéia que surge quando lemos o título do livro, não se trata de mais uma canalhice desancando a atuação dos soldados brasileiros na Itália. Mesmo porque foi escrito por alguém que estava lá, e quem estava lá sabe o quanto foi difícil e custosa aquela campanha. Tive contato com o livro de Leonercio pela primeira vez em 1985. Havia alguns volumes empilhados em uma loja das Livrarias Siciliano que já não existe mais, localizada na rua Teodoro Sampaio. A capa mal delineada com a reprodução de um panfleto de propaganda alemão e o título que prometia revelações sobre episódios obscuros imediatamente chamaram a atenção. Não havia logotipo de editora. Apesar de se tratar de uma edição custeada pelo próprio autor, o livro havia entrado na rede de distribuição das maiores livrarias nacionais. Como? Provavelmente, graças ao esforço pessoal do autor. Era o resultado do trabalho de alguém que tinha uma história a contar, e que precisava desesperadamente ser ouvido. Como sempre, meu pai atendeu meu pedido de comprar o livro.

Até então, o único livro sobre a FEB que havia lido era “A Luta dos Pracinhas,” na edição de 1983 da editora Record. Tratava-se da republicação de várias das crônicas do correspondente de guerra Joel Silveira, no volume acrescidas de um apêndice de dezenas de fotografias da FEB – a maioria das quais inédita e supreendentemente com legendas corretas, pois o livro havia sido publicado em co-autoria com Thassilo Mitke, também correspondente da FEB e autor das imagens.

Além do título e do caráter de livro independente de “Verdades e Vergonhas,” as poucas fotos publicadas na obra de Leonercio também despertaram uma curiosidade intensa. No lugar das fotos de desfiles, de reuniões de generais e das triunfais imagens da rendição de Fornovo, as imagens selecionadas por Leonercio mostravam alguns soldados barbudos e enlameados. Uma das legendas: “entrada do túnel asqueroso sob o velho cemitério de Bombiana.” A descrição que Leonercio fazia do front inspirava terror. Bastou para perceber mesmo antes de chegar em casa e começar a ler que o livro teria, sim, muito de novo e desconhecido para quem desejasse conhecer mais profundamente a história da FEB.

Mas antes de entrar no assunto da guerra, o livro começa com uma angustiante narrativa de dois veteranos da FEB, sobrevivendo em Brasília no ano de 1970 graças a esmolas e caridade de alguns indivíduos sensíveis aos seus problemas. Um deles habitava precariamente um barracão da obra da futura sede da associação dos ex-combatentes. Pode soar como exagero, já que o livro está imbuído do caráter de denúncia das injustiças cometidas contra os veteranos da FEB. Anos depois, ouvi de expedicionários de São Paulo inúmeras histórias similares sobre veteranos que dependeram da caridade da associação, tendo vivido temporariamente no velho casarão da rua Santa Madalena por não disporem de condições de garantir uma moradia. Leonercio não estava exagerando. Nada de anormal no Brasil, tal como aconteceu com tantos outros que não caíram nas graças da caridade oficial – fossem veteranos ou não.

Ele também não exagerou quando fez referência à péssima alimentação que se planejou fornecer aos combatentes da FEB antes da partida para a Europa, nem quando fez menção à falta de preparo da tropa e da incapacidade de conduzir homens demonstrada por alguns oficiais. Leonercio não era homem de meio termo, e quem lê o livro percebe quais comandantes de fato arraigaram respeito e quais foram desprezados pelos veteranos – décadas de conversas com estes igualmente reforçaram minhas impressões sobre a precisão do registro histórico do livro.

Anos se passaram sem maiores informações sobre o autor e sua obra. A única confirmação obtida era que Leonercio havia de fato embarcado para a Itália como cabo na 2.a Companhia de Fuzileiros do 11.o Regimento de Infantaria. Há uma fotografia sua no livro “O Paraná na FEB,” de autoria de Agostinho José Rodrigues, além de uma breve descrição da ação que o fez merecedor da Cruz de Combate de 1.a Classe.

Quinze anos depois, em 2000, as livrarias de Curitiba receberam uma nova partida do livro. Tratava-se de edição idêntica à obtida em 1985, porém com um carimbo que atualizava o endereço de contato com o autor. Mesmo assim, a obra de Leonercio permaneceu desconhecida fora do círculo de leitores curitibanos. Nem os expedicionários residentes em outros estados que não o Paraná tomaram contato com a obra. Havia um exemplar na biblioteca do Centro Cultural Vergueiro em São Paulo que despareceu – único caso de meu conhecimento sobre a presença do livro em um acervo de consulta pública.

Além do elenco de vergonhas a que foram submetidos os soldados brasileiros – iniciais, intermediárias e finais, na classificação do autor – a narrativa do livro enfoca as ações de combate de uma companhia de fuzileiros na Itália. Em nenhum momento se faz menção à unidade de pertença dessa companhia, mas as datas e localidades mencionadas logo tornam evidente que se trata de uma das companhias do I Batalhão do 11.o RI. A narrativa do ataque de 12 de dezembro de 1944 ao Monte Castello é uma das mais dramáticas e detalhadas dentre toda literatura de memória produzida por veteranos da FEB. Essa ação de combate foi o batismo de fogo da unidade de Leonercio, que ainda teria pela frente os meses de patrulhas em montanhas e a tarefa de constituir a vanguarda no ataque a Montese realizado a partir de 14 de abril de 1945. Sua atual ausência das livrarias e o fato de nunca ter despertado o interesse de grande editoras é constatação cabal do desinteresse sobre a história da FEB ainda vigente no Brasil, relacionado a uma indiferença maior em relação a questões históricas mais amplas. É preciso que livros como o de Leonercio se tornem conhecidos, para que nosso entendimento sobre a experiência brasileira na Segunda Guerra Mundial não se esgote nas superficiais lembranças de velhinhos montados em carros de combate em desfiles de 7 de Setembro.

Leonercio faleceu muitos anos depois da guerra, mas nunca lhe deixaram de ser próximos o sibilar dos ventos de inverno e os assovios das rajadas da Lurdinha.

8 Respostas para “Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira, de Leonercio Soares”

  1. , eu tinha esse livro , ganhei do meu tiio ‘
    nem ligava pra ele , um dia sem nada para fazer fui ler nossa
    li umas 30 vezes
    eu perdi ele :/
    queria tanto pode ter esse livro de novo , ja procurei mais nao axo eu lugar nem um
    . queria voltar a reler sobre montese, sobre monte castelo ‘
    , tantas gentes fazem falta pra mim ‘
    como o sargento borfin ‘
    ,

  2. Que eu saiba este livro só pode ser achado em Curitiba, por se tratar de obra editada pelo próprio autor. Eu obtive alguns novos exemplares na Livraria do Chaim, que fica nas proximidades da UFPR.

    Cesar.

  3. Bem, eu achei tal livro no Mercado Aberto de Porto Alegre. Nem sabia que se tratava de raridade. Por uma relativa coincidência vim a descobrir que tal livro é raro.

  4. Vou procurar este livro no Chain, mas caso alguem tenha , por favor me de noticias. Como Policial Militar da Reserva estou escrevendo um livro com fatos nunca revelados a Sociedade Brasileira, tambem vai ser um livro polemico, aguardem. Mandem noticias pelo meu endereço. Um baita abraço a todos os 10% de Exzpedicionarios que stao ainda vivos por este Brasil afora. Edison Bindi |militar da Reserva

  5. luab matos Diz:

    preciso urgente desse livro
    li ele varias vezes..
    so que por motivos de briga com familia acabei perdendo o livro
    me sinto triste pq nao consigo axa em lugar algum se alguem
    sabe onde eu possa encontrar meu imail e esse logan_warcreft_@hotmail.com
    abrigado.. a todos

  6. Se alguém puder envbiar este livro para mim em pdf eu agradeço. Meu email é: fsarinho@yahoo.com.br

  7. Recebemos um raríssimo exemplar do livro “Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira” do Autor Leonercio Soares. É uma das 100 cópias mimeografadas assinadas pelo Autor que foram extraídas para Distribuição Exclusiva a: Críticos, Editoras, Órgãos de Imprensa, Entidades e UMAS POUCAS PERSONALIDADES. Para edição normal comporta revisão e correções. Interessados contatar: estante@alexandrialivros.com.br

  8. Se algupem tiver este exempla aqui em recife, me envie uma mensagem para meu email: fernandesjuvino@yahoo.com.br; e diga como e onde e quanto.
    Um amigo me emprestrou e fique facinado por este relato tão raro sobre nossos combatentes. E por ter um outro colega comentado sobre as ações na FEB de ter assitindo um documentario alegando ter sido tudo uma armação para nos dar respaldo diante da sociedade, e fiquei indignado e gostaria que ele le-se.

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